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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

A igualdade não é uma tarte

Em A Vida Secreta das Abelhas Lily que é a personagem principal engraça romanticamente com outra personagem e ele também engraça com ela. Mas como eles são de cores diferentes a coisa torna-se complicada. Ela pensa: puxa, na escola disseram-nos que os negros eram todos feios e burros mas este não é nem uma coisa nem outra e agora o que faço? Enquanto ele pensa: se chegar perto desta rapariga vou acabar morto. Fez-me lembrar daquela situação em que está um grupo de cavalheiros na rua - se eu fosse também um senhor preocupava-me com a possibilidade de me assaltarem. Como não sou tenho de esperar não ser assaltada\não ouvir coisas nojentas\não ser perseguida\não ser violada. Isto acontece desde que temos quê? Uns 11 ou 12 anos? Quanto menos privilegiados somos maior cuidado temos que ter se queremos continuar vivos. Claro que por crescermos e vivermos numa sociedade injusta podemos ser levados a pensar que isto é normal ou que é a maneira correcta de pensar e que temos de defender os nossos privilégios: não quero estas pessoas perto de mim", "não quero ver filmes com elas", "não quero que tenham os mesmos direitos que eu" - e tenho o direito de dizer e fazer tudo o que me apetecer para combater estas ameaças. Algumas pessoas vêem esta questão dos direitos como uma tarte: se estas pessoas pegarem uma fatia eu vou ficar com menos. 

  

Sairmos da nossa própria bolha de privilégio, qualquer que ela seja, não é fácil. Há uns tempos falei aqui da iniciativa de uma livraria americana: durante uma semana todos os livros de homens estiveram virados ao contrário de modo que não se visse a lombada. Nos comentários da notícia havia gente zangada. Pessoal que preferiu sentir-se ameaçado em vez de pensar como é sentir que nunca ou quase nunca se é representado ou como deve ser frustrante sentir que nada daquilo do que se diz é levado a sério. "Não percebo porque é que esta gente faz motins contra a polícia" ou "esta gente não devia estar contente por viver num campo de refugiados? Não caiem bombas ali, ah!" - comentários clássicos. Recentemente encontrei este: "não percebo porque há-de ser mais difícil para as mulheres do que para nós viver sem instalações sanitárias!", alguém que ficou indignado ao ver um vídeo sobre mulheres que vivem em zonas remotas da Índia. Comentários destes mostram quão longe se consegue estar de compreender a realidade de um semelhante.

Carlota ainda dentro da máquina

Nunca vou perceber a insistência em colocar alunos a fazer exames, por mais tempo que passe. Com excepção dos exames para admissão a uma instituição (também não sou fã, mas tem de ser), todos os outros são uma inutilidade. Mas quem, com toda a franqueza, acha boa ideia sujeitar crianças da primária a semelhante coisa? Outras inutilidades: chumbos, horas extras disto e daquilo, ter os miúdos fechados todos os dias numa sala a passar coisas de um quadro. Uma vez quando eu andava no básico plantámos flores - é verdade: tivemos de desenhar e fazer uma cerca e depois mexer na terra para colocar as flores. Mexer em terra negra e com minhocas não soou muito apelativo no momento, mas pelo menos estávamos fora da sala. Pobre Carlota, se desvia os olhos para a janela atrasa-se a passar a matéria. Ainda bem que ela em breve terá a sua capacidade imaginativa reduzida ao mínimo. Também temos a tradição secular de ensinar as coisas no vácuo, e daí que 90% do que se ensina pareça não ter real importância. Comecei a pensar que um sistema destes não era muito bom quando tinha uns sete anos e queriam que pegasse na caneta com os dois dedos como toda a gente - ninguém me explicou porque é que toda a gente tinha de fazer assim.

E pensavas tu que eras do contra...

Já me chamaram aqui politicamente correcta umas poucas de vezes. É sempre muito engraçado. Uma vez foi porque escrevi sobre uma modelo com trissomia 21 - no dia seguinte lá estava alguém com este blá blá. E eu tipo: mas meu senhor, eu só quero que todos sejam felizes! Eu estava contente por ter encontrado essa história e por falar dela num post. Às vezes dá-me vontade de escrever sobre isto do que é correcto ou incorrecto - mas entre abrir o pc (salvo seja: ainda continua com a dobradiça partida e não fecha) e entrar no blog desisto. É absurdo e eu não podia estar-me mais nas tintas. Com tantos conflitos armados neste momento no mundo, poluição, aumento do número de ditadores alguém que se dá ao trabalho de ir chatear outra pessoa porque esta disse que ambos os géneros barra pessoas de todas as cores barra pessoas consideradas com deficiência merecem o mesmo respeito...Give me a break. Se vocês falam de igualdade e alguém se irrita o problema é dela, não é vosso. Na verdade, irritar certos tipos de pessoas com esse assunto faz parte da diversão. E é muito necessário. 

Gente, vai ficar tudo bem...

Isto é o que eu acho: a democracia está a morrer. Pelo andar da carruagem a médio-prazo terá dado o último suspiro. Será substituída por regimes fascistas de extrema agressividade onde quem não faça parte do grupo privilegiado será despojado de direitos, considerado uma ameaça e neutralizado de alguma forma. Não será um regime ditatorial como já se viu antes porque as pessoas não precisam de ser incitadas ao ódio: já estão tão cheias que elas aceitarão um totalitarismo com a maior gratidão. Não haverão desculpas: "não sabíamos de nada só queríamos comida e trabalho". Já sabemos tudo e aceitamos: vamos enterrar a democracia por nossa mais feliz vontade. Isto será potenciado pela desinformação e pela histeria colectiva. Daremos o dinheiro que for preciso para termos muros e bombas. O medo será constante, todos os dias. A vida privada também irá morrer, visto que temos de estar seguros. Esta ideia já encontra plena aceitação actualmente. Creio que a maior parte dos valores anti-democráticos já foram aceites e integrados. Este é o futuro das crianças, com o diferença que elas não saberão como era o mundo antes. Nazismo (se vocês têm medo do actual presidente, então o Vice vai fazer-vos rezar para que Hitler ressuscite e seja chamado Madre Teresa) e cenas distópicas de livros serão meras brincadeiras por comparação. Para terminar aqui fica uma foto de pandas bebés:

 

Uma subtil opressão...

Encontro muitas vezes comentários deste tipo: "OMG, hoje em dia só se fala de raça"; "mas agora é tudo sexista", "esta coisa dos refugiados já mete nojo". Eu poderia classificar estes comentários como parvos, mas o facto é que estamos perante uma forma de opressão subtil - "a minha condição social, género ou cor dão-me o privilégio de não ter de me preocupar com o assunto e até de ficar irritado (a) com isso". Ou então: "o teu conceito de igualdade ofende a minha ideia de superioridade masculina por isso vamos a calar o bico". Como vocês sabem, há pessoas que realmente odeiam a ideia de todos terem os mesmos direitos. Há quem tente desviar todo e qualquer assunto para a sua própria pessoa: "ok, este debate sobre igualdade nos cargos políticos está a ser interessante e como tal gostaria de introduzir o seguinte tópico: o quão bom tipo eu considero que sou ".

 

E há quem tente desviar o assunto para mimimis sem importância: "feminismo não é uma boa palavra, devia dizer-se [inserir nome aleatório, por exemplo Gomes] ou: "aquele movimento na América, não gosto nada porque acho que todas as vidas importam". Certo...É claro. Mas não são todas as vidas que estão a ir desta para melhor em plena rua com dez balázios. Também não foram todas as vidas que tiveram de se disfarçar para conseguir entrar numa faculdade, ou que precisavam de autorização para sair do país ou que não podiam dispor do seu próprio dinheiro. Factos. É deprimente que uma pessoa tenha de perder tanto tempo a debater semântica, quando há questões muito mais relevantes. Outra forma de opressão subtil é tentar diminuir o sofrimento dos outros: "não entendo qual é o problema de viver num campo de refugiados, pelo menos ali não caem bombas não é? Eu estaria satisfeito (a)". Quão agarrada ao seu próprio privilégio uma pessoa tem de estar para achar que viver numa tenda no meio da lama, sem nada, sem futuro por meses ou anos é aceitável para qualquer ser humano?

 

"OMG, porque é que estas pessoas estão a fazer caos nas ruas, vão para casa como bons cidadãos!" Não basta minimizar o sofrimentos de outros como ainda lhes atiram a culpa para cima - como se a sua raiva não fosse justificada face a situações sociais injustas. Vejo isto muitas vezes: "isto não é sexista, o problema é vocês serem umas irritadinhas que mereciam [inserir aqui imagem obscena]. Tentar argumentar com alguém que acha que o problema não existe é o mesmo que tentar argumentar com o chapeleiro louco da Alice: vocês podem apontar inúmeros exemplos de como o problema existe mas a pessoa vai continuar a perguntar se querem mais chá. Não vale a pena. 

Pokémons ou o outro lado

As pessoas queixam-se que os videojogos são violentos, fazem perder o interesse no mundo real, não estimulam o exercício...Agora há um jogo que não é violento, obriga a caminhar com os próprios pés, incentiva a socialização e as pessoas continuam a queixar-se. Conhecem a história do garoto que decidiu fazer limonada para oferecer aos jogadores da sua zona? Das pessoas autistas que estão a sair de casa e a comunicar? O relato de alguém que passou a sua hora de almoço a falar com pessoas sobre o jogo? Introvertidos que estão relatar como o jogo os tem ajudado a diminuir crises de ansiedade? De como em algumas áreas se têm juntado centenas de pessoas: novos, velhos, negros e brancos? Mas eles ficam só a olhar para o telemóvel! Bem, não é isso que fazemos todos os dias? Contam o tempo que passam a olhar para o vosso aparelho? Não é para um ecrã que estão a olhar quando escrevem um post? Alguns textos indignados sobre isto fazem-me sentir a mim que nem sou uma grande fã de tecnologia como uma adolescente modernaça. Mas há mesmo pessoal a alargar a rede de amigos! Mas eles nem reparam em nada e podem ser atropelados! Por isso é que há recomendações, uma delas por exemplo não ir por aí sozinho. Nada é perfeito, mas talvez um jogo como este não devesse estar muito lá em cima na nossa lista - coisas gravíssimas a acontecer no mundo. 

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