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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Coisas que aprendi ao ler autoras

Parece-me que é uma boa altura para fazer um balanço deste desafio que foi (tentar) ler mais autoras. Tudo começou em 2016 quando decidi ler dez assim de seguida. Gostei e quis continuar em 2017. Não estava certa de como as coisas iam correr pois como leitora sou incapaz de seguir planos e de facto o ano começou com três autores o que não fazia prever nada de bom...Depois as coisas começaram a correr melhor: quanto mais autoras lia, mais queria ler. Muitas pessoas dizem: "mas eu não escolho o que vou ler com base no género!" Certo. Eu também não escolhia, mas no fim acabava sempre com mais homens lidos do que mulheres. Isto andava a fazer-me comichão. Que raio de feminista era eu afinal? Percebi que não era um fenómeno isolado: ao entrar em blogs literários muitas vezes notava que da lista de livros "resenhados" faziam parte poucas mulheres...E lançam-se colecções quase sem títulos de autoras, as listas de livros essenciais têm uma percentagem bem maior de homens, o Prémio Nobel são 14 contra 100...Fazermos um esforço para contrariar isto vale a pena. Decidi (tentar) resumir algumas coisas que aprendi ao longo do desafio:

 

1. "As mulheres têm pouco a dizer." A literatura no feminino está cercada de ideias falsas. Esta baseia-se no pressuposto de que como os homens andaram pelo mundo enquanto nós ficámos em casa eles terão mais para contar. As mulheres elevaram à categoria de arte o processo de construir mundos no interior de si mesmas, mesmo quando forçadas a uma servidão degradante. É a uma mulher que é atribuído o primeiro romance da História e outro facto interessante: existiu uma língua escrita que era exclusivamente feminina, chamada Nushu, desenvolvida em segredo durante séculos pelas mulheres da província de Hunan na China. Era usada para se comunicarem entre si, escrever histórias e poesia e ia sendo passada de mães para filhas. Mas também a arte de olhar o mundo em redor. Encontrei livros sobre temas tão variados: sobre revoluções políticas, imigração, filosofia, arte, economia...

 

2. "As mulheres só escrevem romances cor-de-rosa." Muitas pessoas dizem que não leem autoras por causa disto. É uma frase curiosa se pensarem que há autores bem conhecidos nesse estilo de livros e ninguém diz que os homens só escrevem isso. Existem óptimas autoras em todos os géneros possíveis: históricos, psicológicos, não-ficção, contos, terror...

 

"Merricat, said Connie, would you like a cup of tea?
Oh no, said Merricat, you’ll poison me.
Merricat, said Connie, would you like to go to sleep?
Down in the boneyard ten feet deep!”

 

3. "Há poucas escritoras". É outra justificação e eu acreditava nela. Mas graças às muitas listas na net, sugestões de seguidores e em outros blogs não tardei a ficar deliciosamente subterrada em autoras. Em nenhum momento fiquei sem nada para ler, o problema era mesmo escolher a próxima. Algumas vão ter de ficar para o ano por isso prepararem-se. 

 

4. Aquilo que os homens dizem ainda é considerado mais importante e credível, enquanto aquilo que nós dizemos é considerado marginal e descartável. Por exemplo, valoriza-se mais a história de um tipo que foi ao Tibete do que a história de um grupo de mulheres numa maternidade. Isso são "Coisas de mulher" [notar o sentido pejorativo] Só que sem a segunda não haveria a primeira. As conquistas masculinas foram feitas à custa do nosso sofrimento e da nossa invisibilidade forçada, por isso não importa se vocês estão numa maternidade, ou a estudar tribos na Amazónia ou são donas de casa na Tijuca: essas experiências têm importância. Vivemos sufocadas naquilo que os homens fazem e dizem e quanto mais autoras lemos mais percebemos esta verdade: nos existimos!

 

“Oh, we solved that long ago!” Rubedo chuckled. “I believe that was Greengallows, Henrik Greengallows? (...) “Hedwig Greengallows, my dear,” mused Citrinitas. “Henrik was just her mercurer. Men are so awfully fond of attributing women’s work to their brothers!

 

5. "Mas há bons autores que escrevem sobre mulheres". Sim, mas esse não é o ponto. Se eu pegar num livro sobre alpinismo, é pouco provável que o autor fale sobre estar com o período. Ele não tem, mas eu sim e uma autora falar sobre isso é importante. Se ela descreve os quilómetros que teve que andar com uma mochila gigante às costas, isso também é importante. Homens e mulheres não são julgados de maneira igual e em situações como essa então...É por isso que um filme com uma super-heroína e não com outro super-herói faz diferença. E se ela tem que fugir de tipos suspeitos - não devem existir muitos homens que tenham passado por isso, mas muitas mulheres sim todos os dias...O nosso ponto de vista é importante. 

 

TODAY, I am a woman," wrote Francie in her diary in the summer when she was thirteen (...) She looked down on her long thin and as yet formless legs. She crossed out the sentence and started over. "Soon, I shall become a woman."

 

6. E porque a História que nos ensinaram não tem nada de universal. É a História de quem sempre teve o poder. Se não procurarmos conhecer o lado de quem não aparece nos manuais ficaremos sempre com uma visão incompleta do mundo. Há uma razão para tanta gente não conseguir citar o nome de uma única cientista e não é a razão que geralmente é apontada...

 

7. Ler autoras ajuda a "alargar o pensamento" no que a questões feministas diz respeito, mesmo que muitas não falem directamente sobre o assunto. Por exemplo, no North and South da Elizabeth Gaskell uma das questões é a relação entre as mulheres e o espaço público. Como o livro é de 1855 quem pertencia a cada espaço era algo ainda rígido e as mulheres ainda só estavam a começar a conquistar um espaço definitivo na vida pública. É diferente de hoje claro, mas o espaço fora de casa ainda tem muitos obstáculos para nós. Ajuda a ver o que foi e o que ainda precisa de ser feito. 

 

8. Mas não ler apenas autoras brancas europeias ou americanas. No Despertar da Kate Chopin há uma parte em que ela faz uma referência a uma ama mulata que caminha pensativamente, mas nunca fala. Temos de ir à procura de outros livros para saber mais sobre ela e sobre a sua realidade. Esta procura, sair da nossa bolha, também faz parte de construirmos uma imagem mais verdadeira da História e do próprio feminismo. 

 

persepolis-running.jpg

 

9. Algo que tenho notado cada vez mais é a quase ausência de relações saudáveis entre mulheres nos vários meios, sejam filmes, livros ou na TV. Por exemplo, nas novelas onde mulheres arrancam cabelos ou roubam filhos umas às outras...Mas as relações masculinas são quase sempre positivas. Quantos milhares de filmes já se devem ter feito com base na glorificação da amizade masculina? A sociedade patriarcal fica com muito medo quando mulheres se juntam então tenta convencê-las desde o berço que o certo é odiarem-se e terem vergonha do seu próprio género. Nem todos os livros de autoras têm necessariamente interacções entre personagens femininas, mas encontrei vários que sim e nunca tinha percebido a importância de uma cena onde três mulheres numa cozinha riem juntas ou de uma cena onde uma mulher está sentada enquanto outra lhe escova o cabelo. Precisamos tanto disto!

 

Nell descansou a cabeça no ombro de Grace e seu cabelo escuro roçou sobre o colo da amiga. Grace afagou-o distraidamente; sua sedosa suavidade era tão reconfortante quanto suas próprias cicatrizes (...) Grace queria perguntar à amiga a intensidade da sua dor (...) Resolveu oferecer o único conforto que podia: com as mãos. Os dedos de Nell entrelaçaram-se aos dela para acalmá-los"

 

10. E depois há as próprias histórias de vida das mulheres que escreveram as obras, quantas vezes recheadas de detalhes incríveis. Devo admitir que muitas vezes interrompia a leitura para ir pesquisar mais coisas sobre esta ou aquela aurora, mas é algo que descobri que pode dar tanto ou mais prazer quanto a história do livro em si.

Ler Autoras: entusiasmos

De volta a esta rubrica para fazer rapidamente um ponto da situação: é possível que esteja a ler várias coisas em simultâneo porque fiquei a modos que entusiasmada e não queria esperar acabar uns para começar outros como seria suposto - há coisas que já devia ter acabado [A Tree Grows in Brooklyn. Não me julguem: ainda é grande e está em inglês. Na verdade, ando a ler em inglês mais depressa agora do que lia no início do ano. Mais um efeito colateral de querer ler autoras]; coisas algo divertidas e ao mesmo tempo algo deprimentes [wishful Drinking. Tirei descaradamente a sugestão daqui. Eu avisei]; coisas que parecem promissoras [Mavis Gallant] e coisas que parecem promissoras mas afinal acho que não [The Vegetarian]. Também já há planos para o que ler a seguir: The Color Purple talvez seguido do The Hate U Give. Temos de ser fortes. 

Ler Autoras: Listas e Ajudas

Como muitos leitores eu gosto de qualquer lista relacionada com livros, mas desde que ando a ler mais autoras tenho ganho um apreço especial por lista só de senhoras, sejam contemporâneas ou não. São uma grande ajuda. Foi através delas que descobri duas coisas fantásticas que li recentemente: Passing de Nella Larsen e Good Morning Midnight de Jean Rhys. Tenho de manifestar também o meu apreço pelas pessoas que amavelmente vão deixando sugestões e pelas que falam de escritoras nos seus próprios blogs. Por exemplo, o último livro que li foi E Depois a Louca Sou Eu de Tati Bernardi - fiquei a saber da sua existência através deste blog. Gostei muito. Se eu for à estante (física ou do telemóvel) e quase não tiver autoras para escolher vou acabar por encolher os ombros e pegar num autor, por isso o melhor é nos deixarmos rodear por elas o mais possível. Já tirei títulos de listas do Goodreads e da lista de leituras da Rory Gilmore. Não sou esquisita. E quanto mais autoras lemos, mais queremos ler.

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