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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

A sua voz também é importante!

O mais incrível em toda esta história é as pessoas ficarem realmente surpreendidas por existir um grupo de partilha de conteúdos sexistas na net. Qual é a novidade? Devem existir centenas deles, alguns perfeitamente acessíveis e nada secretos. Com frequência esses "senhores" migram para outras redes onde assediam e ameaçam livremente. E há uns que conseguem sair da cave e passam a fazer isso no mundo real. Existem grupos de "direitos dos homens" que são extremamente agressivos e que já fizeram mulheres que defendiam publicamente a igualdade irem à polícia por ameaças sérias à sua integridade física e dos seus. Fazem manifestações (públicas) a defender o direito de violarem quem bem lhes apetecer. Estes movimentos pro-rape são apoiados por membros do actual partido que governa a maior democracia do mundo. Não há muito tempo atrás andaram a circular avisos para que as mulheres evitassem certos lugares em variadas cidades do mundo porque havia a hipótese de grupos estarem a planear ataques.

 

Pessoalmente não odeio ninguém, ao contrário do que já me disseram aqui, mas estas pessoas...Elas sim nos odeiam e querem que vivamos caladas e com medo. Não tenho nenhuma dúvida que há uma guerra contra as mulheres a decorrer neste momento. Até simples estátuas de meninas feitas para lembrar que a desigualdade  existe ou lembrar as atrocidades cometidas contra mulheres no passado querem fazer desaparecer...Vejo muitas pessoas que antes de escreverem textos sobre sexismo ou igualdade de direitos parece que têm a necessidade de fazer uma espécie de disclaimer - sim, vou falar sobre isto mas...Esqueçam isso: vocês não têm que se desculpar por coisa alguma. E se alguém não percebe porque o assunto é tão importante, isso não é problema vosso. Escrevam e partilhem, não importa a dimensão da vossa página ou blog. O que importa é não ficar em silêncio. 

Cavalheiros e damas - algumas reflexões

O cavalheirismo é um conceito que se baseia em ideias sexistas - toda uma vida a suspirar por um gentil príncipe para acabar nesta conclusão. Tristíssimo. Outro dia li um texto algures: uma rapariga contava o que tinha acontecido quando foi fazer um voluntariado qualquer que implicava manipular ferramentas e carregar caixotes. Assim que ela ia para pegar num materializavam-se ao seu lado dois ou três tipos prontos a tirar-lhe o peso das mãos. Fofinho. Em teoria. Ora, por acaso essa ajuda foi pedida? Se eu vir uma velinha a passar ao lado de uma estrada não vou chegar lá e puxá-la à força para atravessar sem dizer mais nada e sem perguntar antes. Notem que a rapariga ainda nem tinha pegado na caixa. Nem teve hipótese. Porque eles viram uma mulher naquela situação e pensaram de imediato que ela ia precisar de ajuda. A ideia de ser cavalheiro é baseada nisto: quero ajudar porque acho que é mais frágil do que eu. É um tipo de "ajuda" forçada e que impede a outra parte de se expressar.

 

Reforça da ideia do macho alfa e da fêmea submissa. Há uma conotação de superioridade na ideia de que as mulheres precisam ser “defendidas e reverenciadas” por serem mulheres. Isso me faz pensar em cavalheirismo, e a premissa do cavalheirismo é a fragilidade feminina - citando a Chimamanda de novo. O cavalheirismo tende a resvalar para a complacência: não tens capacidade mental e física para ser tratada como igual a mim. No The Yellow Paper da Charlotte Gilman a personagem está com uma forte depressão. Em nenhum momento o marido é bruto. O que ele faz é minimizar e infantilizar tudo o que a esposa diz - uma forma de manipulação machista subtil que é muito comum. Quanto mais me infantilizas menos os outros me vão levar a sério. Nos livros clássicos há sempre aquele cavalheiro que gentilmente acompanha as damas para fora da sala para elas não se aborrecerem com a "conversa de homens" que se vai seguir...A não aceitação da ajuda implica uma sanção: a rapariga depois de dizer que não precisava de ajuda foi olhada de lado pelos colegas e rotulada de "muito independente". Uma recusa destas é recusar o papel tradicional de fêmea sempre sorridente e grata por qualquer atenção.

 

Todos gostamos de ser valorizados pelo nosso trabalho. E de provar a nossa capacidade. Parece tão legítimo. Uma forma simples de detectar se uma situação é sexista é fazer a inversão dos papéis: posso materializar-me ao pé de um tipo e dizer-lhe que me deixe a mim levar a caixa? Ou posso parar para ajudar um senhor com uma avaria? Acho que muitos senhores neste mundo preferiam atirar-se para a estrada e ser atropelados do que passar por isso. Ser defendido por ti? Imaginem o que as pessoas iam dizer se vissem...Isto significa que ser cavalheiro só funciona numa direcção. Porque haveríamos de aceitar "ajudas" que no sentido inverso são consideradas humilhantes? É assim que se vê que a maioria das histórias tradicionais têm um fundo sexista: não haveria mal em a fêmea ficar na torre e ser salva, excepto que nunca ninguém viu o contrário acontecer. Não é tipo: eu salvo-te e tu salvas-me e depois eu salvo-te outra vez porque somos seres humanos e cometemos erros e ficamos magoados. A nossa sociedade não gosta nada desta ideia. Quando estas gentilizas só servem para disfarçar outras ideias acho que é melhor sermos nós mesmas a puxar a cadeira...

Desigualdade: não existente

Como já contei, quando comecei a ler sobre feminismo fiquei tão entusiasmada que quis logo escrever sobre isso aqui. Claro que não demorou muito até perceber que nem toda a gente estava no mesmo comprimento de onda. Nada a que não me viesse a habituar, mas as pessoas que simplesmente negam que o problema exista continuam a ser até hoje uma coisa de fazer espécie. Não há conversa que se possa ter com alguém que parte de tal pressuposto. Creio que a maioria das pessoas não negam que mandar uma deputada para a cozinha no meio de uma sessão é inapropriado [apesar do modo como continuamos a educar as meninas]; que existe violência doméstica [menos quando a mulher em causa é má fada do lar, teimosa, chata...] ou abuso sexual [menos se ela estiver bêbeda ou vestida de tal modo ou...], mas é enorme a quantidade de situações a que não se liga ou que se acham engraçadas até. Outro dia estava a ler um livro e dizia qualquer coisa como - "kate é aplicada, mas gary tem um dom". Quantas vezes se invertem estes adjectivos?

 

É um facto já estudado: do rapaz que tira boas notas diz-se que é inteligente ou talentoso. Da rapariga diz-se que é trabalhadora ou esforçada [não cheguei acabar o livro - o autor dizia também coisas como "bater como uma menina" e mandei-o ir dar uma curva]. Às vezes as pessoas reconhecem que existe desigualdade em outros países (far far away), mas mais dificilmente aquela que está mesmo à frente do seu nariz. Mais depressa a sociedade reage a situações racistas ou homofóbicas, apesar de tudo. Não tem graça ouvir, por exemplo, crianças dizerem coisas preconceituosas e então também não devia ter graça ouvi-las dizer coisas sexistas. Tenho de citar a Chimamanda: "Lembra como a gente riu com um artigo atroz que saiu sobre mim uns anos atrás? O autor me acusava de ser “raivosa”, como se eu tivesse de me envergonhar por sentir “raiva”. Claro que tenho raiva. Tenho raiva do racismo.Tenho raiva do sexismo. Mas eu recentemente percebi que tenho mais raiva do sexismo do que do racismo. Pois na minha raiva do sexismo eu com frequência me sinto sozinha. Pois eu amo e vivo entre muita gente que facilmente reconhece a injustiça racial, mas não a injustiça de género".

 

Não é só o problema de existir tanta gente que parece incapaz de reconhecer que a desigualdade de géneros existe, mas algumas ainda vão dizer que é tudo vossa culpa: vocês vêem problemas em tudo porque são raivosas (ou usam exemplos de mulheres de sucesso para provar que está tudo na vossa cabeça, uma vez num comentário aqui alguém tentou usar esta técnica. Verdade. Ou que antes existia desigualdade mas agora já não - pessoas muito à frente do seu tempo, que podemos fazer). O ano passado decidi recolher todas as notícias\conteúdos sexistas que fui encontrando ao longo de uma semana e juntei tudo num post - e podia fazer um post assim todas as semanas se tivesse estômago. Nunca é demais este conselho: não discutir estes assuntos com certas pessoas - é o mesmo que tentar debater semiologia com a estante do ikea que tenho atrás de mim.

Quem programou isso na minha vagina?

Li sobre isto há uns tempos e é verdade - alguns senhores parecem querer receber um prémio por qualquer coisa: por não serem violentos, por serem fiéis, por serem cívicos, por nos tratarem como seres humanos...É sinistro achar que fazer uma amabilidade a alguém nos dá o direito de saltar logo para cima dessa pessoa. Costumo ir a um centro comercial que tem umas portas que não são fixas. Se a pessoa entrar e simplesmente largar a porta ela irá bater na cara de quem está atrás. Não espero receber um prémio por segurar a porta, mas há quem ache que mereça o Nobel da paz por não partir o nariz da namorada numa discussão. As meninas são programadas para serem apreciativas em questões onde tal coisa nem se devia colocar. É a ideia sexista de feminilidade - "devias estar grata pela atenção que te estou a dar". Isto tem outras ramificações, como este tipo de frases muito comuns: "o meu marido ajuda muito em casa; "ele é muito meu amigo", "estive muito doente, mas felizmente ele tratou de tudo", também na versão masculina: "hoje estou em casa com os miúdos a fazer de ama seca". Se o vosso companheiro faz um jantar caprichado acho que vocês devem demonstrar apreço.

 

Mas há uma diferença entre aplaudir um bom jantar que foi preparado e aplaudir o facto de ele estar na cozinha. Implica que a cozinha é território feminino e que devemos ficar contentes quando um tipo entra lá. Este exemplo tirei do livro da Chimamanda [Para Educar Crianças Feministas] que também referia outra coisa muito importante - se não vemos com frequência tipos a arrancar cabelos por causa de relacionamentos não é porque eles sejam melhores ou piores mas simplesmente porque a forma como uns são educados para encarar o casamento e afins não é comparável. Vamos ver: à saída da maternidade já vamos embrulhadas em mantas cor de rosa em direcção a quartos decorados em tons pastel que vão ficar cheios de bonecas, tábuas de passar, vassouras e cozinhas em miniatura; quando vocês tiverem uns 4-5 anos já vão saber que uma adulta sem namorado é triste, quando chegarem aos 12 já vão saber que ideal de beleza é que se pretende e que isso é muito importante, quando chegarem aos 20 já vão saber que o relógio não pára. Sabem que a dada altura vão ter de parar e pensar se ainda são comestíveis - quanto tempo resta? E quando saírem dos 20 a frase "há muito peixe no mar", vai começar a modificar-se e vai passar a ser - "agarra logo qualquer carapau que aparecer".

 

As meninas que sofreram esta lavagem cerebral vão encontrar meninos que nunca a sofreram e assim nasce uma relação profundamente desigual. Neste momento em que vocês lêem este post milhões de meninas estão a ser condenadas a uma vida miserável por causa disto. Imaginando que um dia estou a mudar uma fralda também não me corre ir para rua perguntar onde está a minha gratificação pelo rabo do bebé ter ficado bem limpo, nem espero que o pai da criança faço isso. Acho que na história da humanidade nunca nenhum homem proferiu a frase - "estou contente por ter casado com uma mulher que sabe trocar fraldas". Como se fosse algo que viesse programado e tivéssemos obrigação de saber. Dificilmente alguém irá usar aquelas frases acima no sentido inverso...Porque é uma obrigação que ninguém questiona. Ninguém espera que uma mulher abandone o marido ou os filhos doentes. Não vislumbro felicidade num mundo onde uns são educados para dar tudo e outros para receber tudo.

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