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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Tempo para odiar

Quando dizem que as feministas odeiam homens - acho isso irónico. Ontem encontrei uma notícia sobre um engenheiro da Google que foi despedido por fazer circular um texto em que tentava provar que nós éramos biologicamente inferiores. Um nerd patético qualquer que conseguiu chegar à Google e quis se vingar de todas as mulheres que não quiserem brincar com a pilinha dele escrevendo um relatório...De dez páginas! Ou os que andaram a distribuir papéis que diziam que as mulheres não deviam votar, não sei em que universidade aqui. Alguém teve que fazer esses papéis, imprimir e distribuir certo? Ou os que criaram uma petição só porque uma cadeia de cinemas decidiu fazer uma sessão de um certo filme só para senhoras. Ou os idiotas que se ligaram a uma máquina que simula as dores do parto - não por simpatia, mas para tentar provar que as mulheres são umas exageradas.

 

Não contando com os que perseguem mulheres nas redes sociais, criam fóruns, deixam comentários rudes...Dizem que nós odiamos os homens, mas parece-me que quem está cheio de sentimentos negativos são tipos como estes...Que gastam tanta energia e tempo das suas vidas a mostrar o quanto nos odeiam. Energia que podia ser aplicada em coisas muito mais úteis. Por exemplo, o que aprendi sobre como a sociedade afecta negativamente os homens foi em blogs feministas, não foi com certeza em páginas de associações de direitos dos homens ou lá o que é...Também é irónico quando alguém diz que as feministas precisam é de acção entre lençóis. Uma vez recebi um comentário odiento de um zé qualquer e meses depois noutro texto ele deixou outra vez o mesmo comentário - afinal quem é que precisa de acção erótica com urgência?

Gelados erros e um mundo injusto

O mundo é realmente um sítio injusto para nós não é? Se a Wonder Woman tivesse sido um fracasso, quantos anos teríamos de esperar por outro filme idêntico? No entanto todos os dias se fazem filmes e ninguém diz dos medíocres que a culpa é de terem sido dirigidos por um homem ou que se devia parar de fazer filmes focados em personagens masculinas. De igual modo ninguém diz que o alpinismo não é uma actividade para homens se algum tem um acidente ou que a matemática é demasiado complicada para o cérebro masculino se três tipos não conseguem fazer equações...Ou que os homens deviam ser afastados da política quando alguns desatam à pancada em parlamentos. Mas no que toca às mulheres a conversa é outra. Vocês não conseguem subir uma montanha, fazer uma equação ou choram no parlamento? Puff...Claro. É por isso que as mulheres não deviam fazer nada disso. Os homens podem falhar, mas se uma mulher falha isso tem consequências não só para ela própria, como para as outras que vierem a seguir e para todas as espectadoras no caso de filmes e séries. É ridículo. Ninguém devia ser obrigado a trabalhar num ambiente como este.

 

Por trás de cada projecto em Hollywood está pelo menos uma super-heroína mal paga. Quando vi a notícia que este filme estava em produção esta foi a minha sequência de pensamentos. 1º - yeeeeeeea! 2º - céus, espero que não seja outro fiasco 3º - e que não tenha muita coisa inapropriada...Tendo em conta a maneira como somos habitualmente representadas e tratadas. Só vejo mulheres a serem tratadas como objectos tipo umas 3 vezes por semana nos mais diversos contextos...Não há nada que façamos que não seja aproveitado como fetiche erótico para satisfazer audiências masculinas. Este pensamento premeia tudo o que se faz, inclusive coisas que parecem dirigidas às mulheres. Depois de ter publicado a minha opinião sobre a Wonder Woman, continuei a pesquisar coisas por aí e quanto mais se faz isso melhor fica. Este filme consegue desviar-se de muitas balas...Quando se pensa no que teria acontecido se o projecto tivesse caído nas mãos de certos senhores produtores. Teria saído uma coisa muito diferente...Ugh. Felizmente não caiu e assim podemos, por exemplo, sorrir ao ver a nossa amada princesa provar um gelado pela primeira vez em vez de ficarmos com uma sensação de desconforto. Eu amo esta cena. Tão bem feita. Especialmente para as meninas que estão prestes a ser bombardeadas com a ideia que devem ter vergonha de comer.

 

 

Também se tornou claro que algumas pessoas parecem incapazes de perceber simples questões de género. Alguns comentários que encontrei são bons demais: temos quem se queixe que a Gal foi má escolha para o papel porque é demasiado sexy e quem se queixe de que ela foi má escolha porque tem as mamas demasiado pequenas.

 

 

Os que questionam a relevância de ter uma super-heroína (yep, é verdade), os que opinam sobre o que ela devia vestir (e que devia andar mais tapada), sobre como se devia comportar e se devia andar com alguém - esta é especialmente boa pois parece um misto de má interpretação do que é igualdade e misoginia de quem se sente ameaçado por um homem ocupar um "lugar de mulheres". Claro que ninguém questiona porque é que um super-herói precisa de uma companhia - que em muitos casos só lá está para ser salva e fazer aumentar o ego, não para contribuir para a história como acontece aqui. Os super-poderes dela são parvos!

 

 

Por incrível que possa parecer no mesmo rol de comentários no IMDb encontra-se: a) gente que está contente por este filme não ser feminista b) gente chateada porque acha que o filme não é feminista o suficiente c) gente a espumar de boca porque acha isto "uma porcaria de uma propaganda feminista". Ainda assim o prémio tem de ir para o tipo que escreveu uma review em que dizia que as amazonas vivem numa sociedade sem homens e sem sexo. Coitado, precisa que lhe expliquem umas coisinhas...

A sua voz também é importante!

O mais incrível em toda esta história é as pessoas ficarem realmente surpreendidas por existir um grupo de partilha de conteúdos sexistas na net. Qual é a novidade? Devem existir centenas deles, alguns perfeitamente acessíveis e nada secretos. Com frequência esses "senhores" migram para outras redes onde assediam e ameaçam livremente. E há uns que conseguem sair da cave e passam a fazer isso no mundo real. Existem grupos de "direitos dos homens" que são extremamente agressivos e que já fizeram mulheres que defendiam publicamente a igualdade irem à polícia por ameaças sérias à sua integridade física e dos seus. Fazem manifestações (públicas) a defender o direito de violarem quem bem lhes apetecer. Estes movimentos pro-rape são apoiados por membros do actual partido que governa a maior democracia do mundo. Não há muito tempo atrás andaram a circular avisos para que as mulheres evitassem certos lugares em variadas cidades do mundo porque havia a hipótese de grupos estarem a planear ataques.

 

Pessoalmente não odeio ninguém, ao contrário do que já me disseram aqui, mas estas pessoas...Elas sim nos odeiam e querem que vivamos caladas e com medo. Não tenho nenhuma dúvida que há uma guerra contra as mulheres a decorrer neste momento. Até simples estátuas de meninas feitas para lembrar que a desigualdade  existe ou lembrar as atrocidades cometidas contra mulheres no passado querem fazer desaparecer...Vejo muitas pessoas que antes de escreverem textos sobre sexismo ou igualdade de direitos parece que têm a necessidade de fazer uma espécie de disclaimer - sim, vou falar sobre isto mas...Esqueçam isso: vocês não têm que se desculpar por coisa alguma. E se alguém não percebe porque o assunto é tão importante, isso não é problema vosso. Escrevam e partilhem, não importa a dimensão da vossa página ou blog. O que importa é não ficar em silêncio. 

Cavalheiros e damas - algumas reflexões

O cavalheirismo é um conceito que se baseia em ideias sexistas - toda uma vida a suspirar por um gentil príncipe para acabar nesta conclusão. Tristíssimo. Outro dia li um texto algures: uma rapariga contava o que tinha acontecido quando foi fazer um voluntariado qualquer que implicava manipular ferramentas e carregar caixotes. Assim que ela ia para pegar num materializavam-se ao seu lado dois ou três tipos prontos a tirar-lhe o peso das mãos. Fofinho. Em teoria. Ora, por acaso essa ajuda foi pedida? Se eu vir uma velinha a passar ao lado de uma estrada não vou chegar lá e puxá-la à força para atravessar sem dizer mais nada e sem perguntar antes. Notem que a rapariga ainda nem tinha pegado na caixa. Nem teve hipótese. Porque eles viram uma mulher naquela situação e pensaram de imediato que ela ia precisar de ajuda. A ideia de ser cavalheiro é baseada nisto: quero ajudar porque acho que é mais frágil do que eu. É um tipo de "ajuda" forçada e que impede a outra parte de se expressar.

 

Reforça da ideia do macho alfa e da fêmea submissa. Há uma conotação de superioridade na ideia de que as mulheres precisam ser “defendidas e reverenciadas” por serem mulheres. Isso me faz pensar em cavalheirismo, e a premissa do cavalheirismo é a fragilidade feminina - citando a Chimamanda de novo. O cavalheirismo tende a resvalar para a complacência: não tens capacidade mental e física para ser tratada como igual a mim. No The Yellow Paper da Charlotte Gilman a personagem está com uma forte depressão. Em nenhum momento o marido é bruto. O que ele faz é minimizar e infantilizar tudo o que a esposa diz - uma forma de manipulação machista subtil que é muito comum. Quanto mais me infantilizas menos os outros me vão levar a sério. Nos livros clássicos há sempre aquele cavalheiro que gentilmente acompanha as damas para fora da sala para elas não se aborrecerem com a "conversa de homens" que se vai seguir...A não aceitação da ajuda implica uma sanção: a rapariga depois de dizer que não precisava de ajuda foi olhada de lado pelos colegas e rotulada de "muito independente". Uma recusa destas é recusar o papel tradicional de fêmea sempre sorridente e grata por qualquer atenção.

 

Todos gostamos de ser valorizados pelo nosso trabalho. E de provar a nossa capacidade. Parece tão legítimo. Uma forma simples de detectar se uma situação é sexista é fazer a inversão dos papéis: posso materializar-me ao pé de um tipo e dizer-lhe que me deixe a mim levar a caixa? Ou posso parar para ajudar um senhor com uma avaria? Acho que muitos senhores neste mundo preferiam atirar-se para a estrada e ser atropelados do que passar por isso. Ser defendido por ti? Imaginem o que as pessoas iam dizer se vissem...Isto significa que ser cavalheiro só funciona numa direcção. Porque haveríamos de aceitar "ajudas" que no sentido inverso são consideradas humilhantes? É assim que se vê que a maioria das histórias tradicionais têm um fundo sexista: não haveria mal em a fêmea ficar na torre e ser salva, excepto que nunca ninguém viu o contrário acontecer. Não é tipo: eu salvo-te e tu salvas-me e depois eu salvo-te outra vez porque somos seres humanos e cometemos erros e ficamos magoados. A nossa sociedade não gosta nada desta ideia. Quando estas gentilizas só servem para disfarçar outras ideias acho que é melhor sermos nós mesmas a puxar a cadeira...

Desigualdade: não existente

Como já contei, quando comecei a ler sobre feminismo fiquei tão entusiasmada que quis logo escrever sobre isso aqui. Claro que não demorou muito até perceber que nem toda a gente estava no mesmo comprimento de onda. Nada a que não me viesse a habituar, mas as pessoas que simplesmente negam que o problema exista continuam a ser até hoje uma coisa de fazer espécie. Não há conversa que se possa ter com alguém que parte de tal pressuposto. Creio que a maioria das pessoas não negam que mandar uma deputada para a cozinha no meio de uma sessão é inapropriado [apesar do modo como continuamos a educar as meninas]; que existe violência doméstica [menos quando a mulher em causa é má fada do lar, teimosa, chata...] ou abuso sexual [menos se ela estiver bêbeda ou vestida de tal modo ou...], mas é enorme a quantidade de situações a que não se liga ou que se acham engraçadas até. Outro dia estava a ler um livro e dizia qualquer coisa como - "kate é aplicada, mas gary tem um dom". Quantas vezes se invertem estes adjectivos?

 

É um facto já estudado: do rapaz que tira boas notas diz-se que é inteligente ou talentoso. Da rapariga diz-se que é trabalhadora ou esforçada [não cheguei acabar o livro - o autor dizia também coisas como "bater como uma menina" e mandei-o ir dar uma curva]. Às vezes as pessoas reconhecem que existe desigualdade em outros países (far far away), mas mais dificilmente aquela que está mesmo à frente do seu nariz. Mais depressa a sociedade reage a situações racistas ou homofóbicas, apesar de tudo. Não tem graça ouvir, por exemplo, crianças dizerem coisas preconceituosas e então também não devia ter graça ouvi-las dizer coisas sexistas. Tenho de citar a Chimamanda: "Lembra como a gente riu com um artigo atroz que saiu sobre mim uns anos atrás? O autor me acusava de ser “raivosa”, como se eu tivesse de me envergonhar por sentir “raiva”. Claro que tenho raiva. Tenho raiva do racismo.Tenho raiva do sexismo. Mas eu recentemente percebi que tenho mais raiva do sexismo do que do racismo. Pois na minha raiva do sexismo eu com frequência me sinto sozinha. Pois eu amo e vivo entre muita gente que facilmente reconhece a injustiça racial, mas não a injustiça de género".

 

Não é só o problema de existir tanta gente que parece incapaz de reconhecer que a desigualdade de géneros existe, mas algumas ainda vão dizer que é tudo vossa culpa: vocês vêem problemas em tudo porque são raivosas (ou usam exemplos de mulheres de sucesso para provar que está tudo na vossa cabeça, uma vez num comentário aqui alguém tentou usar esta técnica. Verdade. Ou que antes existia desigualdade mas agora já não - pessoas muito à frente do seu tempo, que podemos fazer). O ano passado decidi recolher todas as notícias\conteúdos sexistas que fui encontrando ao longo de uma semana e juntei tudo num post - e podia fazer um post assim todas as semanas se tivesse estômago. Nunca é demais este conselho: não discutir estes assuntos com certas pessoas - é o mesmo que tentar debater semiologia com a estante do ikea que tenho atrás de mim.

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