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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Sopinha de Letras

Num post que escrevi com os 10 sinais que indicam que um leitor é um snob literário de nível médio: um deles era ter lido com prazer os livros obrigatórios na escola. Podia ter exagerado para efeitos humorísticos, mas sim: amei ler as malfadadas obras [o Garrett um pouco menos] e em alguns casos essa primeira leitura tornou-se a primeira pedra de uma relação estável e feliz. Acho que também tive sorte: tive excelentes professoras. E não tive que estudar o Amor de Perdição...Não que não o tivesse lido se fosse preciso. Eu lia tudo. E sim: também gostava da parte da análise - o que este parágrafo nos mostra sobre a personagem e por aí fora. Nisto a poesia oferecia mais liberdade...Todos os trabalhos de casa fossem analisar as moedas que caem em cima dos pêssegos no poema do Cesário. Era triste quando tínhamos de avançar no programa, havendo ainda tanta coisa para estudar sobre as obras - a parte do Camões não achei assim muito fácil, mas compensei enchendo as margens do manual com anotações impossíveis de entender. Em termos de notas safei-me bem [menos no Garrett], uma vez consegui falar 5 minutos seguidos sem me engasgar sobre a simbologia nos Maias. Fiquei contente comigo própria. Eu era uma nerd ridícula...Mas era só nisto [e em História claro], eu detestava quase todas as outras matérias e tentava não despender com elas mais do que o tempo necessário. 

Linhas que nos separam ou não

Há uns tempos falei aqui de algumas ideias equivocadas sobre liberdade de expressão, respeito e sobre o que deve ser ou não tolerado. Tristemente, é um tema que ainda não morreu e acho que há mais esclarecimentos que se impõem, pois parece-me que há muito pessoal a viver iludido. Tomemos como exemplo certos senhores em Hollywood: qualquer pessoa razoável irá dizer que aqueles tipos são uns porcos doentes e muitos homens irão dizer que jamais se comportariam de tal forma. Agora vamos supor que encontro uma crónica sobre este assunto. Lá fala-se em discutir quando é que um não significa não, o conceito de consensual e a atitude de actrizes que permitem isso para subir na carreira. Será que posso colocar ao mesmo nível certos produtores e estes hipotéticos cronistas? Não será cometer uma injustiça para com pessoas que só estão a dar a sua "opinião" e que até podem ser moralmente correctíssimas? Não - estas pessoas estão todas no mesmo clube. Têm exactamente a mesma linha de pensamento, que permite que a violência sexual continue a grassar impune.

 

Pois é: temos de nos preocupar não só com todos estes predadores, mas também com todos os seus simpatizantes disfarçados que aparecem a seguir. Fazem valer a velha máxima: por cada homem que vos manda directamente para a cozinha, há três que vão tentar fazê-lo indirectamente - porque são espertos ou porque vivem iludidos... Vão tentar convencer-vos que a culpa dos crimes é vossa, mas usando palavras caras. Isto estende-se para outras situações: recentemente acabei de ler o The Hate You Give, um óptimo YA que tem a violência policial como pano de fundo - a personagem principal, uma adolescente negra chamada Starr, vê um polícia matar um amigo seu. A dada altura da narrativa Starr tem que dizer a uma das suas melhores amigas que fazer piadas racistas\xenófobas não é certo e pode realmente magoar os outros. Mas ela não percebe e diz que a Starr é que tem de superar isso - e que não são umas piadinhas que vão fazer dela uma racista! De um lado temos os adeptos do: não concordo com isso, mas [inserir objecção] e depois temos estes: não concordo com isso, mas até tem muita piada. Não é como se isso pudesse ser comparado a linchar alguém...

 

Só que tal como no exemplo anterior o pensamento é o mesmo: o raciocínio que leva alguém a proferir algo xenófobo não é diferente do raciocínio que leva alguém a matar por causa da cor da pele, tem tudo a mesma génese que é o ódio - interiorizado e transformado numa coisa normal. E porque tanta gente acha normal e é condescendente isso abre caminho para que outras achem que podem matar ou abusar sem consequências. E notem sobre quem recai novamente a tónica: se não achas graça o problema é teu. Se pessoas fazem explodir coisas na vossa cidade e vocês vão para as redes atacar outras pessoas que não vos fizeram mal algum, não há diferença entre vocês e quem fez esse acto horrível. Não importa que vocês estejam a postar no conforto do vosso lar - estão a ser guiados pelo mesmo sentimento. É outra das razões porque o ódio é  tão perigoso: dá-nos a sensação de estar a ganhar, mas ainda antes de clicarmos no botão de publicar já perdemos.

 

Nem precisamos de ir assim tão longe: a blogosfera é um sortido rico neste aspecto, especialmente em fat e slut shaming. Estereótipos e juízos de valor sobre opções que as mulheres tomam, porque é giro e normal. Já viste esses sítios onde apedrejam as mulheres? Ainda bem que somos pessoas esclarecidas, com ideias modernas e com blogs com fundos rosa bebé. Arranjem um blog engraçadito e já podem dizer que as gordas de biquíni são nojentas e que as mulheres que fazem isto ou aquilo são umas putas...Ou um blog daqueles com um ar respeitável para parecer que a vossa "opinião" é apoiada por cinco estudos científicos. Podemos não ser fanáticos, não fazer parte da KKK nem assediar ninguém, mas se não tivermos cuidado podemos facilmente fazer parte desses clubes. As linhas de separação são mais ténues do que parecem.

Sobre opiniões e respeito

Pouco tempo depois de ter escrito um post sobre estupidez no Goodreads recebi um comentário de alguém que dizia que toda a gente tinha direito à sua opinião e cito - "Quer dizer, afinal de contas, essa é a finalidade do site em si, ajudando as pessoas a ler, ou não, novos livros, baseado na opinião de quem já os tenha lido?" Achei este comentário muito engraçado na medida em que eu nunca disse que alguém devia ser proibido de comentar o que quer que seja e porque soa como se eu tivesse pegado em opiniões aleatórias de quem não gostou dos títulos em causa. Dizer que não se gostou de um livro porque este tinha uma escrita intrincada, pouco diálogo...É útil. Dizer: "não gostei do Beloved, porque é mais um livro escrito para me fazer sentir vergonha de ser branco" ou "não gostei, Anne [Frank] é um bebé chorão que só se queixava e vivia no luxo", parece-me que catapulta as coisas para outro nível não particularmente bom ou útil. Não é a primeira vez que me deixam comentários como aquele. Já tive aqui pessoas irritadas porque acharam que eu não respeitei as suas ideias. Ironicamente, eram ideias um nadinha misóginas. Vamos lá a alguns esclarecimentos

 

Há muitas coisas que são uma questão de opinião: preferirem livros policiais em vez de históricos, magenta em vez de azul...Racismo, sexismo ou xenofobia não são questões de opinião. Há muitos aspectos para se debater dentro do campo da igualdade e assim, mas ser racista não é uma questão de preferência pessoal nem de lados: tudo o que humilhe, coloque em perigo ou desvalorize a experiência de outro ser humano não pode estar certo. Que pessoa sensata iria sentar-se a discutir as vantagens de abusar sexualmente de outra? De viver debaixo de um fascismo? Quando uma "preferência pessoal" provoca tanto sofrimento no mundo se calhar é porque tem mesmo outro nome...

 

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Trata-se quase de um paradoxo: ter que respeitar uma "opinião" que é desrespeitosa. Se alguém entra aqui com um discurso misógino, essa pessoa está a faltar-me ao respeito enquanto mulher e enquanto ser humano e não pode esperar que eu queira debater ou ver o "seu lado da questão". Este conceito deturpado do que é liberdade de expressão é muito comum: quero ter liberdade para vos mandar estar caladas. Ou seja: quero ter liberdade para poder tirar a vossa. Já contei que uma vez aqui um senhor queria que eu debatesse as ideias dele, uma delas era que as mulheres deviam ser proibidas de uma série de coisas. Que clássico. De facto, algumas pessoas só puxam esta cartada da liberdade de expressão quando alguém aponta as coisas racistas (ou outras do género) que dizem. Na verdade elas estão-se nas tintas para isso, só a usam para mascarar o seu ódio e o facto de se sentirem ameaçadas com a possibilidade de o poder ser distribuído por mais grupos. São as mesmas que gostariam de voltar no tempo, para uma época em que se podia dizer tudo (e onde só alguns tinham direitos, mas até a peste bubónica é preferível à igualdade) e que são capazes até de defender pessoas que foram despedidas por escrevem relatórios sexistas de 10 páginas. Umas vítimas. Só que não. 

 

Outro problema com este conceito distorcido de liberdade de expressão é achar-se que se pode dizer tudo mesmo não tendo ou não querendo ter qualquer conhecimento: "acho que o Holocausto nunca existiu e vocês têm de respeitar a minha ideia!". Não. Isso não são ideias ou opiniões: é ignorância. "Mas a minha ignorância é perfeitamente válida!". Não outra vez. Isto coloca em risco a existência da própria Democracia ainda mais quando em associação com o ódio. Defender a tolerância requer não tolerar aqueles que são intolerantes: é o paradoxo da tolerância - "when we extend tolerance to those who are openly intolerant, the tolerant ones end up being destroyed. And tolerance with them". Se damos validade a estas ideias que promovem as duas piores coisas que existem acabaremos por ser destruídos por elas quando as pessoas que as defendem conseguirem chegar ao poder. Algo que todos temos o desprazer de apreciar hoje. "Mas não podes impedir as pessoas de se manifestarem!!"

 

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Como diz o ditado: se não os podes vencer, então tira partido deles. Não temos de ser coniventes com este tipo de "opiniões" em lado nenhum e isso inclui nos nossos pequenos e modestos blogs. 

 

Não é por nada...

 

Mas fiz 26 anos algures a semana passada. Tinha planeado escrever um texto sobre isso mas na altura não me saiu nada...Não é que hoje esteja mais inspirada. Textos reflexivos sobre o meu percurso, o que aprendi e não sei quê...Não obrigado - já bastou quando tinha de ir ao psicólogo. A única coisa que me ocorre é a mais óbvia e deprimente - estou a ficar velha. Não gozem que isto é sério. Só mais 4 anos para deixar a casa dos vinte e nem um pouco mais adulta e normal. Também não tenho nada para sortear aqui em jeito de celebração, mas partilho a foto acima que sou eu ao serão. 

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