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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Hidden Figures

 

A história real de Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monae) três mulheres afro americanas que trabalhavam na NASA e que estiveram por trás da operação Mercúrio que em 1962 colocou o primeiro americano a orbitar a terra e que lançou de novo os Estados Unidos na corrida espacial. Estava à espera disto desde Dezembro, quando tropecei por acaso no trailer, e é escusado dizer que quando me sentei na sala já ia predisposta para amar. A história é incrível: estamos a falar de mulheres negras que conseguiram provar o seu valor numa sociedade fortemente segregada e misógina. Estes temas são explorados ao longo do filme que além de acompanhar o percurso das três cientistas dentro da NASA consegue também de forma satisfatória fornecer contexto político (toda a gente estava um pouco paranóica nessa altura...) e social.

 

As primeiras cenas dão-nos logo um vislumbre do que era vida de um negro na América racista: não era apenas a chocante violência física, mas a violência psicológica exercida todos os dias nas mais simples e corriqueiras situações. Há algo de muito errado em ficar-se com um carro avariado na berma e ao ver-se um polícia a chegar a primeira coisa que se pensa é que não estamos a cometer nenhum crime logo ele não pode nada contra nós. Felizmente que hoje em dia por lá toda a gente pode confiar na polícia...A história em si é forte, mas seria injusto não mencionar que este filme tem um super elenco. A começar pelas três figuras centrais interpretadas por actrizes talentosas e carismáticas. Em certos momentos o espectador vai ficar com vontade de saltar para dentro do ecrã e celebrar com elas as suas vitórias. Apesar de tudo, dos momentos em que se fica com o coração meio apertado, sai-se da sala com a sensação de celebração. Do esforço e da perseverança contra os piores sentimentos da humanidade. As três interagem perfeitamente entre si e também com as personagens secundárias que incluem um Jim Parsons muito sério e um Kevin Costner que vai derreter o vosso coração. Tudo óptimo a nível de interpretação. Além do contexto político e social também nos é dado a observar um pouco da vida pessoal das protagonistas o que ajuda a equilibrar o filme e a dar profundidade.

 

 

Tecnicamente também é um filme satisfatório: desde o guarda-roupa mimoso, passando pela banda sonora - de Hans Zimmer e Pharrell Williams. Há tantos momentos que podia mencionar ao longo daqueles 120 minutos, tantos detalhes bem pensados, uns particularmente simbólicos e que dão que pensar...Vale a pena estar com atenção. Sem grandes pontos negativos a apontar: haverá filmes mais experimentais e com mais pantominas artísticas, mas não foi isso que fui à procura - queria a história de três mulheres cientistas e tive-a. O que nos leva ao ponto seguinte: Quantos filmes existem sobre mulheres cientistas...Ou outras? Provoca uma certa frustração pensar nisso: fazem filmes sobre personagens masculinas quase a granel, mas tenho de esperar pela passagem do cometa Halley para ver um sobre uma mulher. Será por falta de personagens? Se calhar não sabemos fazer contas. Outra coisa que notei e que não é retratada em filmes suficientes: o reconhecimento das capacidades de uma mulher não é uma ameaça para os egos masculinos - beneficia todos. Eu estava a olhar e a pensar: puxa, mas é isto mesmo - ser um suporte para filhas, colegas e esposas.

 

E claro que é fundamental também celebrar\divulgar as conquistas feitas por mulheres negras. Não se pode de maneira nenhuma deixar que essas conquistas sejam esquecidas, especialmente hoje onde todos os que não sejam homens brancos estão a ver os seus direitos ameaçados. Todas as pessoas que não pertencem a essa categoria existem e existiram na História, não são factos alternativos. Mais um motivo porque este filme é importante e mais uma razão para ir vê-lo.

The Revenant: O Renascido

 

Estava moderadamente interessada em ver este filme: queria ver o Brooklyn com a Saoirse Ronan que me pareceu lindo pelo trailer. Mas depois vi que este tinha uma mega pontuação no imdb (8.3) e nomeações para os Óscares e pensei que não seria recursos em vão. É baseado num romance de Michael Punke que por sua vez é baseado na vida real de Hugh Glass (1783 – 1833), explorador e comerciante de peles que em 1823  durante uma campanha no oeste americano é atacado por um urso. É deixado para trás com dois companheiros (no filme Tom Hardy e Will Poulter) que supostamente deviam cuidar dele mas que também acabam por dar às de Vila-Diogo. Glass, segundo o registos, arrastou-se 200 milhas pela floresta sem armas nem suprimentos. E com a vingança em mente. É difícil dar detalhes sem cair em spoilers, embora a história seja famosa e esteja na Wikipédia. O que achei é que este filme é tipo uma concha: bonita, mas vazia por dentro. 

 

A parte fotográfica e artística é de encher o olho. As paisagens são lindas e estão filmadas com técnica, usando a luz natural dos lugares - as filmagens foram feitas em três países diferentes. Há detalhes da água a correr, das formiguinhas, planos das árvores...Para termos a certeza que o protagonista está mesmo no fim do mundo e sozinho. Um sentimento bem conseguido, especialmente nas cenas em que ele é apenas um pontinho num campo aberto enorme. Nota-se o investimento para não recorrer apenas ao computador. As prestações também são boas. Não é que o Leo diga muita coisa já que a sua função é sobreviver (e bem) na neve, mas temos o Tom a mandar umas larachas profundas sobre encontrar Deus com um sotaque do Texas...Adorável. O filme beneficia muito com estas performances, especialmente quando tem tantos problemas a nível de tudo o que não seja a parte estética. 

 

 

A narrativa estabelece-se no início e depois não se desenvolve mais. Não há plot twists ou reviravoltas: é sempre a mesma coisa. E é tão linear que nem o filme vai a meio e já conseguimos prever o que vai acontecer a seguir. Há uns flashbacks para tentar dar profundidade, mas que ao fim de um tempo também deixam de ter interesse. Não há desenvolvimento das personagens: quem é bom, mau...Fica logo visível. Esta previsibilidade leva a outro problema: não há conexão sentimental do espectador em relação ao que está a ver. Também acontece com os livros: quantas personagens não vão desta para melhor sem que o leitor sequer pense um segundo nelas. Num filme deste tipo (que tem a intenção de ser visceral e cru) e em que a maior parte das cenas estão focadas numa única personagem, o espectador têm de ficar com o coração nas mãos. Tem de ficar perturbado e sentir-se minúsculo no assento. No início isto acontece um pouco mas depois é apenas um bocejo. 

 

Especialmente porque filme é a modos que absurdamente grande: quase passa as duas horas e meia de duração. O final também não é aquele bang que seria preciso para rematar. Estava a contar conseguir extrair mais sumo: qualquer coisa passível de análise. Ok, é uma história de sobrevivência, interessante claro, mas...Também não é como se estes temas (sobrevivência\vingança) fossem temas novos no cinema. No geral acaba por ser mais visceral do ponto de vista estético, do que propriamente psicológico. Algumas cenas são bem conseguidas (há uma envolvendo um cavalo que tem um certo simbolismo) e é visualmente apelativo mas o resto não acompanha o que torna a experiência não tão prazerosa quanto as várias possibilidades deixavam antever...Too much ado about (almost) nothing. 

Os Óscares ou um sistema errado

Já ninguém se cala com os Óscares, especialmente depois do comité decidir ignorar actores negros pelo segundo ano consecutivo. A coisa já vai em boicote de várias celebridades...Eu até costumo ver: muito glamour, vestidos, pessoas que choram de emoção...Mas a crua realidade é que isto é uma cerimónia feita por e para homens brancos, onde eles trocam prémios entre si por papéis que quase só eles é que desempenham e pelos quais ganham quase sempre mais. De vez em quando lá aparecem uns outsiders para não parecer tão mal e claro que há categorias para premiar actrizes...Mas não é como se elas realmente tivessem importância: aí até aos trinta ainda são "usáveis", mas a partir daí é melhores começar a empurrá-las discretamente para debaixo de uma pedra. A ideia de que os homens são tipo o vinho do porto é treta: eles apenas têm o direito de envelhecer e elas não. Esta é a diferença.

 

Entre tantas que perpetuam a dominância masculina: salários, oportunidades, respeito...Quando forem um dia ver um filme com efeitos espectaculares lembrem-se que muito provavelmente houve mulheres a trabalhar na equipa e que é muito provável que só nesse dia elas tenham aturado duas faltas de respeito e três propostas porcas...Longe das luzes é isto o que acontece. Quantos candidatos a melhor filme tem minorias ou mulheres em destaque? Por exemplo, vejamos 2015: No primeiro caso apenas um: Selma, que é sobre as marchas lideradas por Luther King. No segundo caso, nenhum: se contarem com Selma, quatro dos oito filmes eram especificamente sobre figuras masculinas da História, dois deles cientistas. Este ano a lista de indicados tem apenas 24% de mulheres. Sou a única a achar estes padrões francamente negativos? E não se trata de estabelecer quotas.

 

Para alguém chegar ali primeiro precisa de um papel, precisa de espaço. Não se podem premiar papéis que não existem. A sério: se eu quiser ver mais um exemplo de supremacia branca masculina não preciso de ficar a pé até tão tarde...Basta ir aos meus manuais de História ou pesquisar um pouco na net. Quando é que poderei ir ao cinema ver um filme sobre uma cientista? Ou um filme com uma actriz plus-size que não seja uma comédia? Ou filme com minorias que fale de coisas que não sejam apenas a escravatura? E ainda é preciso passar pelo sexismo da passadeira vermelha...Quase me esquecia disso. Devíamos boicotar sim, mas era todo o sistema. Porque ele está errado. 

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