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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Linhas que nos separam ou não

Há uns tempos falei aqui de algumas ideias equivocadas sobre liberdade de expressão, respeito e sobre o que deve ser ou não tolerado. Tristemente, é um tema que ainda não morreu e acho que há mais esclarecimentos que se impõem, pois parece-me que há muito pessoal a viver iludido. Tomemos como exemplo certos senhores em Hollywood: qualquer pessoa razoável irá dizer que aqueles tipos são uns porcos doentes e muitos homens irão dizer que jamais se comportariam de tal forma. Agora vamos supor que encontro uma crónica sobre este assunto. Lá fala-se em discutir quando é que um não significa não, o conceito de consensual e a atitude de actrizes que permitem isso para subir na carreira. Será que posso colocar ao mesmo nível certos produtores e estes hipotéticos cronistas? Não será cometer uma injustiça para com pessoas que só estão a dar a sua "opinião" e que até podem ser moralmente correctíssimas? Não - estas pessoas estão todas no mesmo clube. Têm exactamente a mesma linha de pensamento, que permite que a violência sexual continue a grassar impune.

 

Pois é: temos de nos preocupar não só com todos estes predadores, mas também com todos os seus simpatizantes disfarçados que aparecem a seguir. Fazem valer a velha máxima: por cada homem que vos manda directamente para a cozinha, há três que vão tentar fazê-lo indirectamente - porque são espertos ou porque vivem iludidos... Vão tentar convencer-vos que a culpa dos crimes é vossa, mas usando palavras caras. Isto estende-se para outras situações: recentemente acabei de ler o The Hate You Give, um óptimo YA que tem a violência policial como pano de fundo - a personagem principal, uma adolescente negra chamada Starr, vê um polícia matar um amigo seu. A dada altura da narrativa Starr tem que dizer a uma das suas melhores amigas que fazer piadas racistas\xenófobas não é certo e pode realmente magoar os outros. Mas ela não percebe e diz que a Starr é que tem de superar isso - e que não são umas piadinhas que vão fazer dela uma racista! De um lado temos os adeptos do: não concordo com isso, mas [inserir objecção] e depois temos estes: não concordo com isso, mas até tem muita piada. Não é como se isso pudesse ser comparado a linchar alguém...

 

Só que tal como no exemplo anterior o pensamento é o mesmo: o raciocínio que leva alguém a proferir algo xenófobo não é diferente do raciocínio que leva alguém a matar por causa da cor da pele, tem tudo a mesma génese que é o ódio - interiorizado e transformado numa coisa normal. E porque tanta gente acha normal e é condescendente isso abre caminho para que outras achem que podem matar ou abusar sem consequências. E notem sobre quem recai novamente a tónica: se não achas graça o problema é teu. Se pessoas fazem explodir coisas na vossa cidade e vocês vão para as redes atacar outras pessoas que não vos fizeram mal algum, não há diferença entre vocês e quem fez esse acto horrível. Não importa que vocês estejam a postar no conforto do vosso lar - estão a ser guiados pelo mesmo sentimento. É outra das razões porque o ódio é  tão perigoso: dá-nos a sensação de estar a ganhar, mas ainda antes de clicarmos no botão de publicar já perdemos.

 

Nem precisamos de ir assim tão longe: a blogosfera é um sortido rico neste aspecto, especialmente em fat e slut shaming. Estereótipos e juízos de valor sobre opções que as mulheres tomam, porque é giro e normal. Já viste esses sítios onde apedrejam as mulheres? Ainda bem que somos pessoas esclarecidas, com ideias modernas e com blogs com fundos rosa bebé. Arranjem um blog engraçadito e já podem dizer que as gordas de biquíni são nojentas e que as mulheres que fazem isto ou aquilo são umas putas...Ou um blog daqueles com um ar respeitável para parecer que a vossa "opinião" é apoiada por cinco estudos científicos. Podemos não ser fanáticos, não fazer parte da KKK nem assediar ninguém, mas se não tivermos cuidado podemos facilmente fazer parte desses clubes. As linhas de separação são mais ténues do que parecem.

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