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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Em defesa das nossas Dolores

Lolita é um dos meus livros preferidos e também um dos que mais polémica continua a causar desde que foi publicado em 1955 - além de ter sido banido fritou a cabeça dos críticos: romance erótico, psicológico ou social? Uma sátira? A primeira vez que lhe peguei fiquei abananada com a densidade do texto e com tantas referências veladas, mas também com a sua beleza. O começo de uma bonita relação...Mas quando andei a pesquisar sobre ele constatei que a maioria das análises parecia se centrar na figura de Dolores - a wikipédia, por exemplo, diz que o livro é sobre uma menina sexualmente precoce. Não concordo: acho que é sobre um tipo alienado e mentalmente perturbado com um comportamento sexual desviante que um dia encontra uma garota e fica obcecado. Há dias encontrei um texto que relaciona as capas da obra ao longo do tempo com a hipersexualização feminina e achei muito interessante porque nunca havia pensado nisso. A questão é: se o Humbert é o foco principal - não só é a personagem principal como é o narrador - porque não há nenhuma capa com ele? Porque todas mostram Lolitas atrevidas com chupa-chupas, de pernas abertas, meio despidas, com letras redondas e coloridas?

 

 

Dolores é uma miúda de doze anos sem uma estrutura familiar segura - Humbert aproveita-se disso. Ela é uma fantasia sexual para ele, não um ser de carne e osso. E não é isso que fazem precisamente as pessoas que aprovam este tipo de capas? Não apelam ao desejo sexual mostrando uma jovem "pronta para a acção"? É incrível como isto ilustra tão bem o que a sociedade pensa do sexo feminino: bocados de carne prontos a serem consumidos. Existem inúmeros exemplos destes: há uns tempos circulou uma campanha de prevenção do cancro de mama feita por um canal porno - achei graça às imagens até perceber a mensagem do texto: proteja as suas mamas, se não vamos brincar com o quê? Aquando da transformação de Bruce Jenner vi um tipo dizer na TV: pois, ele agora é uma mulher...Já tem umas belas mamas! A liberdade sexual parece longe quando pensamos que a mentalidade continua ser esta: queremos ver fotos tuas nua. Ok, aqui estão elas! Grande puta nos saíste...Não é contraditório? Parece que tudo é muito engraçado até decidirmos mostrar vontade própria. 

 

É perturbante ver estas análises que reduzem a Lolita a um objecto, quando nem sequer era essa a vontade do próprio autor. A hipersexualização, especialmente das meninas é um problema sério. Quando saiu o vídeo do Chandelier da Sia mostrando uma menina a dançar de maiô estalou a polémica: mas se alguém olha para a rapariga e o que vê são apenas as suas formas...Se calhar o problema está na própria cabeça da pessoa. Há uma cena no livro em que Lolita está deitada na relva - não está a fazer mais nada além de existir - mas a imagem é excitante para Humbert. De quem é o problema? Ele nem tão pouco é um narrador confiável...Altera as coisas a seu gosto, como aliás fazem também outros personagens de Nabokov. Lolita nunca apresenta a sua perspectiva da situação - "Lo apareceu no meu quarto a soluçar e fizemos as pazes muito suavemente. Compreendem, ela não tinha absolutamente lugar nenhum para onde ir"

 

 

Outro problema em que nunca tinha pensado ao olhar para estas capas mas da qual já me tinha apercebido em alguns comentários, é que fazem recair a culpa sobre Dolores. Ela é que provoca e que seduz. Retira-se responsabilidade à outra parte alegando que a culpa foi dela e que o sexo foi consentido...E daí? Pensamento tão típico: provocaste agora sofre. Quem chegar agora e olhar para estes designs dificilmente vai imaginar que esta não é uma estória colorida e glamorosa - Basta olhar para as primeiras linhas do livro para perceber que Lolita é uma construção de Humbert - "Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita". Há uma preocupação do autor em acentuar a tristeza da personagem (dolour), mas esse lado parece que quase nunca é lido - o outro é mais vendável. E assim se retira mais um pouco de humanidade...Aliás, há quem diga que esta é uma das mais bonitas estórias de amor do século XX. A verdade é esta: somos uma sociedade de Humberts sedentos de carne fresca. 

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