Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Filme: Big Eyes

big_eyes_movie_poster_2.jpg

 

Há estórias tão bizarras neste mundo que nem parecem verdade e a estória de Margaret Keane certamente cabe neste grupo. Nascida em 1927 no Tennessee, ela ficou conhecida depois de processar o seu marido Walter Keane que durante uma década vendeu os quadros dela como se fossem seus. As pinturas que mostravam crianças e animais com uns olhos gigantes fizeram grande sucesso - toda a gente queria uma cópia e até Andy Warhol teceu elogios. Mas o que ninguém sabia e o que nunca ninguém desconfiou foi que enquanto ela se sentava a pintar várias horas por dia o marido ficava com os louros todos, impedindo-a até mesmo de conviver com outras pessoas com medo que elas descobrissem a verdade. Para quem estiver agora a pensar: sim este é um filme de Tim Burton. Tenho encontrado opiniões onde o pessoal disseca quase até á exaustão se Big Eyes é um produto tipicamente burtuniano ou não e francamente não vejo qual o objectivo disso...Não é um trabalho na linha dos últimos com pescoços cortados e cenários escuros, é uma experiência intimista e terra a terra, passada na São Francisco dos anos cinquenta e sessenta que faz lembrar mais o Big Fish, talvez...Começa precisamente com uma cena colorida e cheia de luz - Margaret a caminho da grande cidade com uma filha pequena e um monte de quadros pronta para começar uma nova vida. Porém, ninguém parece interessado no seus peculiares retratos e é então que Walter Keane cai do céu cheio de promessas. No geral achei um filme um bocado desinspirado...Correcto mas sem ser memorável.

 

Os pontos positivos: Margaret é uma personagem belíssima. É doce, sensível e tem um verdadeiro amor á arte. Ela vê-se presa num casamento que lhe consume a identidade, numa sociedade também ela abusiva que reprime o seu talento...Tem de lutar para encontrar um caminho livre que lhe permita ter paz de espírito. A interpretação de Amy Adams é igualmente belíssima, tão cheia de intensidade...O marido é o contrário: um mentiroso compulsivo e egocêntrico A interpretação de Christoph Waltz também é digna de nota pela positiva, embora tenha achado a personagem um bocado exagerada especialmente no final - muito Dr. Jekyll e pouco Mr. Hyde. Parece-me ter havido ali uma certa tentativa de Johnny Deppização da personagem...Se seja como for o contraste entre ambos - a falta de exterior de um com a falta de interior do outro - resulta. Alguns questões interessantes são colocadas: a opressão social que não via com bom olhos as tentativas de emancipação de uma mulher ainda por cima divorciada ("quem quer comprar arte feita por uma mulher?") e a perda de identidade própria são as que ressaltam primeiro. E tenho de dizer que é refrescante ver a estória de uma mulher retratada no ecrã...Mas também a questão da produção em massa dos produtos culturais e do papel dos mass media - os efeitos que a democratização da arte provocada entre outros pelo surgimento da televisão teve na forma como se olha para o conceito.

 

2014-Big-Eyes-film-still-012.jpg

 

Antes as pinturas e esculturas estavam em galerias onde eram compradas por elites mas então chega a uma altura em que elas saem porta fora e passam a estar acessíveis em toda a parte e a toda a gente. As pessoas vêem e querem mesmo que seja uma apenas uma cópia - será que algo deixa de poder ser considerado arte só porque não está num museu? Não pude deixar de me rir com um crítico de arte do New York que aparece lá pois fez lembrar a dificuldade que tenho para perceber algumas resenhas que saem nos suplementos culturais...A sério. Com a televisão a arte deixa de ser dissecada apenas entre os círculos especializados mas entra assim em todas as casas. Essa caixinha mágica onde pela primeira vez as pessoas podiam ver notícias, discussões de filosofia e fofocas a um ritmo alucinante...E o artista passa a estar dependente da imagem: não basta ter talento é preciso ser visto e saber falar. É impossível não sorrir perante as técnicas de Marketing que Walter Keane vai sacando da cartola...A cena em que Margaret vê as suas pinturas á venda num supermercado é provavelmente a melhor do filme. É o que acontece hoje: não se pode simplesmente ficar a pintar num estúdio ou a cozinhar um restaurante. O talento dela não transparece para o exterior, constrangimento que é visível em várias cenas.

 

Talvez esta seja a resposta para o facto de ninguém ter suspeitado do logro...Era ele, e não ela, o que as pessoas queriam. Não interessava que houvesse uma discrepância quase evidente entre Walter Keane e aqueles quadros...Quando as pessoas querem acreditar numa mentira é difícil demove-las. E os media tiveram um papel fundamental na criação deste eu falsificado. Esteticamente é um filme bonito - a visão da Golden Gate Bridge, as ruas iluminadas pelos néons e os carros da altura...E também a nível de interiores, nomeadamente os estúdios cheios de detalhes que reflectem o estado de espírito de Margaret. E claro os vestidos e as latas de sopa Campbel...Tão nostálgico. A voz assombrada da Lana encaixa perfeitamente. Mas como disse acima achei que no conjunto faltou sal.  Exceptuando uma ou duas cenas há não realmente grandes momentos de genialidade e a narrativa segue linear. A estória de base é boa, mas um tanto esquecível...

 

4 comentários

Comentar post

Quem Escreve...

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Avisos

As opiniões sobre livros e afins podem conter spoilers. Comentários agressivos ou insultuosos não serão aprovados. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico

Calendário

Março 2015

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031

Sumo que já se bebeu

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D

A dona lê

Tem Reclamações a Fazer?

Já visitaram o estaminé