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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Sobre opiniões e respeito

Pouco tempo depois de ter escrito um post sobre estupidez no Goodreads recebi um comentário de alguém que dizia que toda a gente tinha direito à sua opinião e cito - "Quer dizer, afinal de contas, essa é a finalidade do site em si, ajudando as pessoas a ler, ou não, novos livros, baseado na opinião de quem já os tenha lido?" Achei este comentário muito engraçado na medida em que eu nunca disse que alguém devia ser proibido de comentar o que quer que seja e porque soa como se eu tivesse pegado em opiniões aleatórias de quem não gostou dos títulos em causa. Dizer que não se gostou de um livro porque este tinha uma escrita intrincada, pouco diálogo...É útil. Dizer: "não gostei do Beloved, porque é mais um livro escrito para me fazer sentir vergonha de ser branco" ou "não gostei, Anne [Frank] é um bebé chorão que só se queixava e vivia no luxo", parece-me que catapulta as coisas para outro nível não particularmente bom ou útil. Não é a primeira vez que me deixam comentários como aquele. Já tive aqui pessoas irritadas porque acharam que eu não respeitei as suas ideias. Ironicamente, eram ideias um nadinha misóginas. Vamos lá a alguns esclarecimentos

 

Há muitas coisas que são uma questão de opinião: preferirem livros policiais em vez de históricos, magenta em vez de azul...Racismo, sexismo ou xenofobia não são questões de opinião. Há muitos aspectos para se debater dentro do campo da igualdade e assim, mas ser racista não é uma questão de preferência pessoal nem de lados: tudo o que humilhe, coloque em perigo ou desvalorize a experiência de outro ser humano não pode estar certo. Que pessoa sensata iria sentar-se a discutir as vantagens de abusar sexualmente de outra? De viver debaixo de um fascismo? Quando uma "preferência pessoal" provoca tanto sofrimento no mundo se calhar é porque tem mesmo outro nome...

 

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Trata-se quase de um paradoxo: ter que respeitar uma "opinião" que é desrespeitosa. Se alguém entra aqui com um discurso misógino, essa pessoa está a faltar-me ao respeito enquanto mulher e enquanto ser humano e não pode esperar que eu queira debater ou ver o "seu lado da questão". Este conceito deturpado do que é liberdade de expressão é muito comum: quero ter liberdade para vos mandar estar caladas. Ou seja: quero ter liberdade para poder tirar a vossa. Já contei que uma vez aqui um senhor queria que eu debatesse as ideias dele, uma delas era que as mulheres deviam ser proibidas de uma série de coisas. Que clássico. De facto, algumas pessoas só puxam esta cartada da liberdade de expressão quando alguém aponta as coisas racistas (ou outras do género) que dizem. Na verdade elas estão-se nas tintas para isso, só a usam para mascarar o seu ódio e o facto de se sentirem ameaçadas com a possibilidade de o poder ser distribuído por mais grupos. São as mesmas que gostariam de voltar no tempo, para uma época em que se podia dizer tudo (e onde só alguns tinham direitos, mas até a peste bubónica é preferível à igualdade) e que são capazes até de defender pessoas que foram despedidas por escrevem relatórios sexistas de 10 páginas. Umas vítimas. Só que não. 

 

Outro problema com este conceito distorcido de liberdade de expressão é achar-se que se pode dizer tudo mesmo não tendo ou não querendo ter qualquer conhecimento: "acho que o Holocausto nunca existiu e vocês têm de respeitar a minha ideia!". Não. Isso não são ideias ou opiniões: é ignorância. "Mas a minha ignorância é perfeitamente válida!". Não outra vez. Isto coloca em risco a existência da própria Democracia ainda mais quando em associação com o ódio. Defender a tolerância requer não tolerar aqueles que são intolerantes: é o paradoxo da tolerância - "when we extend tolerance to those who are openly intolerant, the tolerant ones end up being destroyed. And tolerance with them". Se damos validade a estas ideias que promovem as duas piores coisas que existem acabaremos por ser destruídos por elas quando as pessoas que as defendem conseguirem chegar ao poder. Algo que todos temos o desprazer de apreciar hoje. "Mas não podes impedir as pessoas de se manifestarem!!"

 

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Como diz o ditado: se não os podes vencer, então tira partido deles. Não temos de ser coniventes com este tipo de "opiniões" em lado nenhum e isso inclui nos nossos pequenos e modestos blogs. 

 

Ainda sobre partes da vida

Não quer dizer que os livros façam parte de todas as facetas da vossa vida, mas por exemplo: há dias em que saio de casa apenas com o intuito de passear e de repente aparece à minha frente uma banca com livros. Amo quando isso acontece. E se acabo por trazer alguma coisa, não é culpa minha. Já que ali estou o melhor é aproveitar as oportunidades. Ontem à noite abri o computador norteada por um objectivo não relacionado com coisas literárias: uma hora depois cinco ou seis novos livros já estavam a ser passados para o telemóvel e uma dezena de nomes já tinham sido acrescentados à lista. Mais uma vez não foi culpa minha. Eu só queria uma receita de panquecas.

Parte da Vida

Não sou capaz de ter uma relação intermitente com os livros - este mês leio, no outro não...É normal que às vezes o ritmo diminua, mas a ideia de acordar um dia e perceber que já não leio nada há tipo dois anos é mortificante. Creio que em algumas coisas sou uma leitora descontraída: não acabo todos os livros que começo e nem sempre os leio por ordem, mas não ter nada "em leitura" é algo que não consigo por muito tempo. Uma semana sem pegar em nada e já parece que o mundo está a sair dos eixos. Também não sou descontraída quanto ao acto de ter: encontrar meia dúzia de livros que já nem se sabia que tinham sido comprados e atirá-los para um caixote é uma cena quase tão mortificante como a anterior. Posso só ter duas estantes, mas sou possessiva. Não consigo evitar. 

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As opiniões sobre livros e afins podem conter spoilers. Comentários agressivos ou insultuosos não serão aprovados. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico

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