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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

O verdadeiro problema

Eu sei: muita gente não gosta nada desta modernice de coisas só para mulheres. Nem de quotas em filmes ou em empresas. E fatigam-se muito a escrever sobre o assunto. Ironicamente parece que se fatigam menos a escrever sobre: a) o constante assédio a mulheres em lugares públicos e afins b) discriminação racial c) desigualdade no acesso aos cargos. É que são estes problemas que estão na origem dos anteriores. Se eles não existissem, ninguém ia precisar de falar em festivais de música só para mulheres ou em quotas do que quer que seja. É a lógica da batata não? Não preciso de garantir representatividade por meios legais porque sei que ela naturalmente existe. Só que não [temos de admitir que "as pessoas devem ser escolhidas pelo seu talento ou capacidade" é uma coisa engraçada quando se analisa do ponto de vista histórico]. É por isso que os debates em torno do tema são realmente fatigantes: porque se atiram argumentos ignorando o elefante no meio da sala. É como debater o preço dos livros: podem passar o dia a falar disso, mas não é o preço que faz com que as pessoas não leiam... É um problema muito mais complexo.

 

Do mesmo modo pode-se concordar ou discordar, mas a realidade é que as quotas não são o elefante no meio da sala - o verdadeiro problema é o enorme fosso de desigualdade entre uns grupos e outros criado por séculos e séculos de repressão. Qualquer discussão que ignore isto não vai a lado nenhum porque aqui está a base de tudo. Claro que tem muito mais graça discutir a última polémica, o que não sei quem disse...E algumas pessoas insistem em negar a existência deste fosso, pois claro. Mesmo estando ele bem à vista de todos. As prioridades de algumas pessoas em termos de discussão e a própria altura que escolhem, já diz muito sobre o que elas realmente pensam sobre igualdade.

Sobre opiniões e respeito

Pouco tempo depois de ter escrito um post sobre estupidez no Goodreads recebi um comentário de alguém que dizia que toda a gente tinha direito à sua opinião e cito - "Quer dizer, afinal de contas, essa é a finalidade do site em si, ajudando as pessoas a ler, ou não, novos livros, baseado na opinião de quem já os tenha lido?" Achei este comentário muito engraçado na medida em que eu nunca disse que alguém devia ser proibido de comentar o que quer que seja e porque soa como se eu tivesse pegado em opiniões aleatórias de quem não gostou dos títulos em causa. Dizer que não se gostou de um livro porque este tinha uma escrita intrincada, pouco diálogo...É útil. Dizer: "não gostei do Beloved, porque é mais um livro escrito para me fazer sentir vergonha de ser branco" ou "não gostei, Anne [Frank] é um bebé chorão que só se queixava e vivia no luxo", parece-me que catapulta as coisas para outro nível não particularmente bom ou útil. Não é a primeira vez que me deixam comentários como aquele. Já tive aqui pessoas irritadas porque acharam que eu não respeitei as suas ideias. Ironicamente, eram ideias um nadinha misóginas. Vamos lá a alguns esclarecimentos

 

Há muitas coisas que são uma questão de opinião: preferirem livros policiais em vez de históricos, magenta em vez de azul...Racismo, sexismo ou xenofobia não são questões de opinião. Há muitos aspectos para se debater dentro do campo da igualdade e assim, mas ser racista não é uma questão de preferência pessoal nem de lados: tudo o que humilhe, coloque em perigo ou desvalorize a experiência de outro ser humano não pode estar certo. Que pessoa sensata iria sentar-se a discutir as vantagens de abusar sexualmente de outra? De viver debaixo de um fascismo? Quando uma "preferência pessoal" provoca tanto sofrimento no mundo se calhar é porque tem mesmo outro nome...

 

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Trata-se quase de um paradoxo: ter que respeitar uma "opinião" que é desrespeitosa. Se alguém entra aqui com um discurso misógino, essa pessoa está a faltar-me ao respeito enquanto mulher e enquanto ser humano e não pode esperar que eu queira debater ou ver o "seu lado da questão". Este conceito deturpado do que é liberdade de expressão é muito comum: quero ter liberdade para vos mandar estar caladas. Ou seja: quero ter liberdade para poder tirar a vossa. Já contei que uma vez aqui um senhor queria que eu debatesse as ideias dele, uma delas era que as mulheres deviam ser proibidas de uma série de coisas. Que clássico. De facto, algumas pessoas só puxam esta cartada da liberdade de expressão quando alguém aponta as coisas racistas (ou outras do género) que dizem. Na verdade elas estão-se nas tintas para isso, só a usam para mascarar o seu ódio e o facto de se sentirem ameaçadas com a possibilidade de o poder ser distribuído por mais grupos. São as mesmas que gostariam de voltar no tempo, para uma época em que se podia dizer tudo (e onde só alguns tinham direitos, mas até a peste bubónica é preferível à igualdade) e que são capazes até de defender pessoas que foram despedidas por escrevem relatórios sexistas de 10 páginas. Umas vítimas. Só que não. 

 

Outro problema com este conceito distorcido de liberdade de expressão é achar-se que se pode dizer tudo mesmo não tendo ou não querendo ter qualquer conhecimento: "acho que o Holocausto nunca existiu e vocês têm de respeitar a minha ideia!". Não. Isso não são ideias ou opiniões: é ignorância. "Mas a minha ignorância é perfeitamente válida!". Não outra vez. Isto coloca em risco a existência da própria Democracia ainda mais quando em associação com o ódio. Defender a tolerância requer não tolerar aqueles que são intolerantes: é o paradoxo da tolerância - "when we extend tolerance to those who are openly intolerant, the tolerant ones end up being destroyed. And tolerance with them". Se damos validade a estas ideias que promovem as duas piores coisas que existem acabaremos por ser destruídos por elas quando as pessoas que as defendem conseguirem chegar ao poder. Algo que todos temos o desprazer de apreciar hoje. "Mas não podes impedir as pessoas de se manifestarem!!"

 

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Como diz o ditado: se não os podes vencer, então tira partido deles. Não temos de ser coniventes com este tipo de "opiniões" em lado nenhum e isso inclui nos nossos pequenos e modestos blogs. 

 

Ainda sobre partes da vida

Não quer dizer que os livros façam parte de todas as facetas da vossa vida, mas por exemplo: há dias em que saio de casa apenas com o intuito de passear e de repente aparece à minha frente uma banca com livros. Amo quando isso acontece. E se acabo por trazer alguma coisa, não é culpa minha. Já que ali estou o melhor é aproveitar as oportunidades. Ontem à noite abri o computador norteada por um objectivo não relacionado com coisas literárias: uma hora depois cinco ou seis novos livros já estavam a ser passados para o telemóvel e uma dezena de nomes já tinham sido acrescentados à lista. Mais uma vez não foi culpa minha. Eu só queria uma receita de panquecas.

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