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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

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Uma Cana de Pesca para o Meu Avô

 

 Uma Cana de Pesca para o Meu Avô de Gao Xingjian

Edição/reimpressão: 2004
Páginas: 118
Editor: Dom Quixote
Preço: 6,25€
 
Um hino à simplicidade e à beleza das pequenas coisas. É assim que se definem os seis pequenos contos que Gao Xingjian nos apresenta neste livro. Sem uma trama excessivamente complexa nem palavreado complicado, no entanto sem deixar de ter profundidade são nos retratadas situações do quotidiano e da China Rural. O primeiro conto intitula-se O Templo e narra um episódio ocorrido durante a lua-de-mel de um casal, que num impulso do momento decido visitar um templo abandonado, conhecido com o templo da Perfeita Benevolência. A acção passa-se toda ali, mas o autor consegue criar um cenário felicidade com as belíssimas descrições do lugar e do estado de espírito do casal. Somos quase invadidos por um sentimento de serenidade. O segundo conto passa-se num local bastante diferente: numa movimenta rua onde um homem acabou de ser mortalmente atropelado por um autocarro. A narrativa foca-se no pensamento dos transeuntes que param para observar. Como em qualquer outra parte do mundo, as pessoas sentem-se curiosas, especulam e rapidamente esquecem…foi apenas um homem que morreu entre os milhões que vivem na cidade.

 

É um texto que nos leva a reflectir sobre a brevidade da vida, mas sobretudo na indiferença que as pessoas manifestam umas pelas outras num mundo cada vez mais agitado. Esta indiferença também é expressa no terceiro conto A Cãibra em que um homem quase morre afogado, mas ninguém dá valor a essa experiência. Algumas temáticas são comuns a todos os contos: o campo por oposição à cidade, a infância, a memória…temáticas estas que parecem derivar da experiência de vida do autor. O quinto conto, No Parque, versa precisamente sobre a memória: duas pessoas conversam num parque sobre o seu passado. O sexto conto dá título ao livro e é também o mais extenso.

 

Um homem decide comprar uma cana de pesca que lhe lembra o avô e os tempos felizes da infância. É um texto doloroso, pois esses momentos felizes no campo com os avós foram substituídos por uma vida “robot” na grande selva de betão, com entretenimentos instantâneos e fúteis, além de perfeitamente controlados (“evidentemente toda a gente vê os mesmo programas, as informações nacionais das sete horas às sete e meia (…) um programa musical das nove e quarenta e cinco às dez horas”). Os cenários de infância foram destruídos pelo crescimento da cidade, funcionando a cana de pesca com um elo para aquele mundo perdido. O último conto intitula-se Instantâneos, sendo diferente de todos os outros: é constituído por momentos de vida de várias pessoas, como se se tratasse quase de um filme.A escrita do autor é de facto acessível e bastante lírica, o que acaba por contribuir para a sensação de melancolia e saudade dos contos (do penúltimo sobretudo). Ao mesmo tempo é uma escrita imprime ao texto uma beleza única, difícil de descrever por palavras.

 

Como apontamento biográfico, Gao Xingjian na china em 1940. Estudou língua e literatura francesa e entre 1966 e 1976 esteve preso num campo de trabalho (de “reeducação”). Em 1987 pediu asilo político à França, onde actualmente reside, tendo também adquirido nacionalidade francesa. Está proibido de publicar na china desde 1986. Em 2000 ganhou o prémio Nobel da Literatura.

 

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