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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Gelados erros e um mundo injusto

O mundo é realmente um sítio injusto para nós não é? Se a Wonder Woman tivesse sido um fracasso, quantos anos teríamos de esperar por outro filme idêntico? No entanto todos os dias se fazem filmes e ninguém diz dos medíocres que a culpa é de terem sido dirigidos por um homem ou que se devia parar de fazer filmes focados em personagens masculinas. De igual modo ninguém diz que o alpinismo não é uma actividade para homens se algum tem um acidente ou que a matemática é demasiado complicada para o cérebro masculino se três tipos não conseguem fazer equações...Ou que os homens deviam ser afastados da política quando alguns desatam à pancada em parlamentos. Mas no que toca às mulheres a conversa é outra. Vocês não conseguem subir uma montanha, fazer uma equação ou choram no parlamento? Puff...Claro. É por isso que as mulheres não deviam fazer nada disso. Os homens podem falhar, mas se uma mulher falha isso tem consequências não só para ela própria, como para as outras que vierem a seguir e para todas as espectadoras no caso de filmes e séries. É ridículo. Ninguém devia ser obrigado a trabalhar num ambiente como este.

 

Por trás de cada projecto em Hollywood está pelo menos uma super-heroína mal paga. Quando vi a notícia que este filme estava em produção esta foi a minha sequência de pensamentos. 1º - yeeeeeeea! 2º - céus, espero que não seja outro fiasco 3º - e que não tenha muita coisa inapropriada...Tendo em conta a maneira como somos habitualmente representadas e tratadas. Só vejo mulheres a serem tratadas como objectos tipo umas 3 vezes por semana nos mais diversos contextos...Não há nada que façamos que não seja aproveitado como fetiche erótico para satisfazer audiências masculinas. Este pensamento premeia tudo o que se faz, inclusive coisas que parecem dirigidas às mulheres. Depois de ter publicado a minha opinião sobre a Wonder Woman, continuei a pesquisar coisas por aí e quanto mais se faz isso melhor fica. Este filme consegue desviar-se de muitas balas...Quando se pensa no que teria acontecido se o projecto tivesse caído nas mãos de certos senhores produtores. Teria saído uma coisa muito diferente...Ugh. Felizmente não caiu e assim podemos, por exemplo, sorrir ao ver a nossa amada princesa provar um gelado pela primeira vez em vez de ficarmos com uma sensação de desconforto. Eu amo esta cena. Tão bem feita. Especialmente para as meninas que estão prestes a ser bombardeadas com a ideia que devem ter vergonha de comer.

 

 

Também se tornou claro que algumas pessoas parecem incapazes de perceber simples questões de género. Alguns comentários que encontrei são bons demais: temos quem se queixe que a Gal foi má escolha para o papel porque é demasiado sexy e quem se queixe de que ela foi má escolha porque tem as mamas demasiado pequenas.

 

 

Os que questionam a relevância de ter uma super-heroína (yep, é verdade), os que opinam sobre o que ela devia vestir (e que devia andar mais tapada), sobre como se devia comportar e se devia andar com alguém - esta é especialmente boa pois parece um misto de má interpretação do que é igualdade e misoginia de quem se sente ameaçado por um homem ocupar um "lugar de mulheres". Claro que ninguém questiona porque é que um super-herói precisa de uma companhia - que em muitos casos só lá está para ser salva e fazer aumentar o ego, não para contribuir para a história como acontece aqui. Os super-poderes dela são parvos!

 

 

Por incrível que possa parecer no mesmo rol de comentários no IMDb encontra-se: a) gente que está contente por este filme não ser feminista b) gente chateada porque acha que o filme não é feminista o suficiente c) gente a espumar de boca porque acha isto "uma porcaria de uma propaganda feminista". Ainda assim o prémio tem de ir para o tipo que escreveu uma review em que dizia que as amazonas vivem numa sociedade sem homens e sem sexo. Coitado, precisa que lhe expliquem umas coisinhas...

Carlota ainda dentro da máquina

Nunca vou perceber a insistência em colocar alunos a fazer exames, por mais tempo que passe. Com excepção dos exames para admissão a uma instituição (também não sou fã, mas tem de ser), todos os outros são uma inutilidade. Mas quem, com toda a franqueza, acha boa ideia sujeitar crianças da primária a semelhante coisa? Outras inutilidades: chumbos, horas extras disto e daquilo, ter os miúdos fechados todos os dias numa sala a passar coisas de um quadro. Uma vez quando eu andava no básico plantámos flores - é verdade: tivemos de desenhar e fazer uma cerca e depois mexer na terra para colocar as flores. Mexer em terra negra e com minhocas não soou muito apelativo no momento, mas pelo menos estávamos fora da sala. Pobre Carlota, se desvia os olhos para a janela atrasa-se a passar a matéria. Ainda bem que ela em breve terá a sua capacidade imaginativa reduzida ao mínimo. Também temos a tradição secular de ensinar as coisas no vácuo, e daí que 90% do que se ensina pareça não ter real importância. Comecei a pensar que um sistema destes não era muito bom quando tinha uns sete anos e queriam que pegasse na caneta com os dois dedos como toda a gente - ninguém me explicou porque é que toda a gente tinha de fazer assim.

Ler Autoras - um número

Comecei a ler O Deus das Pequenas Coisas. Quando olhei para os livros que trouxe da FL a pensar qual seria o primeiro, a escolha recaiu logo sobre este - embora não soubesse nada da história. O meu lado que estuda os livros obsessivamente antes de os comprar ficou em choque. Mas sem razão: estou a gostar muito. Tão bem escrito. Não tarda já o acabo. Ontem aproveitei e fui ver ao registo: o último autor que li foi há 18 livros atrás, yey!! Já mencionei algumas autoras num post passado (Norte e Sul e a Vida Invisível de Eurídice Gusmão) e entretanto descobri um bom YA (mais um, é verdade!), um distópico assim-assim, li katherine Mansfield (tão bom que nem dá para descrever) e uma autora portuguesa (Ana de Castro Osório, sugestão de um blog amigo. Acabei por me arrepender de não ter trazido de um dos alfarrabistas um pequeno livro de outra feminista: Sara Beirão [1880-1974], mas não chegou o dinheiro. Edição de 47, tadinho). Além das que trouxe agora da FL, tenho mais algumas autoras em espera e 5 no telemóvel. Tudo bem encaminhado. 

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