Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Uma aventura secreta do marquês de Bradomín

 

 

Uma aventura secreta do marquês de Bradomín de Teresa Veiga

Edição/reimpressão: 2008

Páginas: 169
Editor: Cotovia
Preço:14,30€
 
Pode ser um cliché, mas o slogan de Pessoa, adequa-se perfeitamente a este livro, composto por três contos longos: “As parcas”, “Uma aventura secreta do marquês de Bradomín”, que lhe dá título, e “O maldito, Marianina e o feitiço da rocha da pena”. “As parcas” é, à vista desarmada, uma crónica de costumes da típica burguesia portuguesa, de meados do século XX. Rui Pelágio é um engenheiro que vive em Lisboa com a mulher, Francisca Arroyo, que escolheu por ser rica e de boa linhagem e tem três filhos. Homem prático que sobe na vida à custa de cunhas e amizades, vive as delícias da família com a mesma descrição com que frequenta os bordéis, enquanto a mulher, submissa e com pouca instrução, se ocupa apenas do lar. Quando o marido morre esta fica a viver somente com a filha mais nova, Rita, uma criatura mediana e sem objectivo na vida que nem mesmo as tentativas da mãe conseguem arrancar à sua apatia. Mas,mais do que uma crítica a uma sociedade de pessoas dúbias, debaixo de uma fachada de tradicionalismo e bons costumes, é a alegoria do destino representado pelas criadas, feias criaturas que tudo sabem e tudo vêem. As parcas, na mitologia grega as deusas do destino, vão tecendo os fios da vida dos que habitam naquela casa. 
 

Em “uma aventura secreta do marquês de Bradomín” um estudante universitário encontra, no Verão de 1920, na biblioteca do avô, o livro de memórias do marquês de Bradomín. Decido a investigar parte para Cerveira ao encontro de uma contemporânea do marquês, Edwarda. O resultado do encontro é uma carta escrita e enviada seis anos depois em que a senhora conta a passagem do marquês por sua casa. É aqui que se centra a acção, dividida em três partes, consoante vão entrando em cena as personagens, ou melhor à medida que vão seduzidas. A acção decorre unicamente num casarão onde vivia Edwarda, então com 23 anos, com a família, em Cerveira. A chegada do marquês vindo de Espanha vem alterar a vida da família. Num único espaço e num curto período de tempo, qual D.Juan, mas de uma descrição irrepreensível, o marques vai atraindo todas as mulheres da casa (até a criada), acabando por suceder uma inesperada tragédia que vai mudar a vida de todos. No último conto, “o maldito, Marianina, e o feitiço da rocha da pena”, Carlos Sampedro é um médico octogenário que habita num casarão num cerro na serra algarvia.

 

Durante a visita de amigos, tendo em vista não só a sua idade mas também a construção de uma auto-estrada que irá destruir o local, decide contar um segredo que se prende com a antiga proprietária da casa, Marianina, cuja única impossibilidade era não ter um filho. Quando consegue constata-se que a criança é feia e sombria. Pouco depois o marido é salvo por um bruto, Càssio, que passa a ensombrar a vida de todos no cerro. Com este conto, Teresa Veiga transporta-nos para uma outra era onde o diabo surge em forma de gente, responsável pela concepção do filho de Marianina, mas perecível, já que esta acaba por mata-lo. Ao faze-lo lança um feitiço sobre os habitantes do cerro que ninguém consegue quebrar. Esta é uma obra que merece atenção.

 

Nos seus contos Teresa Veiga faz uma incursão pelo universo do fantástico: o destino, libertinagem na pessoa do marquês, a personificação do diabo…o que pode causar alguma estranheza inicial, mas que a mestria da autora acaba por dissipar, prendendo-nos à áurea de mistério que envolve a acção. Contudo, nota-se um certo distanciamento entre o mágico e o real, como se convivessem em dois planos, como acontece em “as parcas”, em que a actividade das criadas se processa “de maneira discreta e silenciosa”, enquanto as demais personagens de nada sabem. A acção é sempre contada por terceiros, o que nos permite passar do momento presente para num outro lugar, seja um cerro no Algarve em tempos idos ou um casarão em Cerveira, no século XIX. Mesmo assim, a narrativa nunca perde a sua fluidez.

 

Diz-se que há livros que devem ser provados, mas outros, poucos, devem ser mastigados e digeridos. Este é um deles. Um exercício de estilo sóbrio e lúcido, por vezes irónico, onde o real e se liga ao romanesco, mas sobretudo um estilo inconfundível, condensado em pouco mais de cem páginas, que se lêem num fôlego….e se tornam a reler sem perigo de cair na monotonia.

 

Pág. 1/2

Quem Escreve...

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Avisos

As opiniões sobre livros e afins podem conter spoilers. Comentários agressivos ou insultuosos não serão aprovados. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico

Calendário

Novembro 2010

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930

Sumo que já se bebeu

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D

A dona lê

Tem Reclamações a Fazer?

Já visitaram o estaminé

subscrever feeds