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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

Quem programou isso na minha vagina?

Li sobre isto há uns tempos e é verdade - alguns senhores parecem querer receber um prémio por qualquer coisa: por não serem violentos, por serem fiéis, por serem cívicos, por nos tratarem como seres humanos...É sinistro achar que fazer uma amabilidade a alguém nos dá o direito de saltar logo para cima dessa pessoa. Costumo ir a um centro comercial que tem umas portas que não são fixas. Se a pessoa entrar e simplesmente largar a porta ela irá bater na cara de quem está atrás. Não espero receber um prémio por segurar a porta, mas há quem ache que mereça o Nobel da paz por não partir o nariz da namorada numa discussão. As meninas são programadas para serem apreciativas em questões onde tal coisa nem se devia colocar. É a ideia sexista de feminilidade - "devias estar grata pela atenção que te estou a dar". Isto tem outras ramificações, como este tipo de frases muito comuns: "o meu marido ajuda muito em casa; "ele é muito meu amigo", "estive muito doente, mas felizmente ele tratou de tudo", também na versão masculina: "hoje estou em casa com os miúdos a fazer de ama seca". Se o vosso companheiro faz um jantar caprichado acho que vocês devem demonstrar apreço.

 

Mas há uma diferença entre aplaudir um bom jantar que foi preparado e aplaudir o facto de ele estar na cozinha. Implica que a cozinha é território feminino e que devemos ficar contentes quando um tipo entra lá. Este exemplo tirei do livro da Chimamanda [Para Educar Crianças Feministas] que também referia outra coisa muito importante - se não vemos com frequência tipos a arrancar cabelos por causa de relacionamentos não é porque eles sejam melhores ou piores mas simplesmente porque a forma como uns são educados para encarar o casamento e afins não é comparável. Vamos ver: à saída da maternidade já vamos embrulhadas em mantas cor de rosa em direcção a quartos decorados em tons pastel que vão ficar cheios de bonecas, tábuas de passar, vassouras e cozinhas em miniatura; quando vocês tiverem uns 4-5 anos já vão saber que uma adulta sem namorado é triste, quando chegarem aos 12 já vão saber que ideal de beleza é que se pretende e que isso é muito importante, quando chegarem aos 20 já vão saber que o relógio não pára. Sabem que a dada altura vão ter de parar e pensar se ainda são comestíveis - quanto tempo resta? E quando saírem dos 20 a frase "há muito peixe no mar", vai começar a modificar-se e vai passar a ser - "agarra logo qualquer carapau que aparecer".

 

As meninas que sofreram esta lavagem cerebral vão encontrar meninos que nunca a sofreram e assim nasce uma relação profundamente desigual. Neste momento em que vocês lêem este post milhões de meninas estão a ser condenadas a uma vida miserável por causa disto. Imaginando que um dia estou a mudar uma fralda também não me corre ir para rua perguntar onde está a minha gratificação pelo rabo do bebé ter ficado bem limpo, nem espero que o pai da criança faço isso. Acho que na história da humanidade nunca nenhum homem proferiu a frase - "estou contente por ter casado com uma mulher que sabe trocar fraldas". Como se fosse algo que viesse programado e tivéssemos obrigação de saber. Dificilmente alguém irá usar aquelas frases acima no sentido inverso...Porque é uma obrigação que ninguém questiona. Ninguém espera que uma mulher abandone o marido ou os filhos doentes. Não vislumbro felicidade num mundo onde uns são educados para dar tudo e outros para receber tudo.

Últimas leituras: não ficção

 

A Vida Imortal de Henrietta Lacks - em 1951 uma mulher negra e pobre com apenas trinta e um anos morreu num hospital em Baltimore de uma forma particularmente agressiva de cancro no colo do útero. Anos mais tarde a família descobriu uma coisa incrível: alguém tinha colectado células do tumor de Henrietta durante um exame sem lhe pedir autorização. Essas células não só não morreram no laboratório como continuam a multiplicar-se - são imortais. Rebecca Skloot conta a história desta mãe involuntária da medicina moderna e aborda questões raciais e de ética.  

 

 

Livre [Wild: From Lost to Found on the Pacific Crest Trail] - aos 26 anos Cheryl Strayed estava no fundo do poço. Com uma família despedaçada e um casamento em ruptura, ela estava quase a atingir um ponto de não retorno. Então decide aventurar-se na Pacific Crest Trail, uma trilha que percorre a costa oeste dos EUA desde a fronteira com o México até à fronteira com o Canadá. Munida de umas botas demasiado pequenas e uma mochila demasiado grande, Cheryl começou no deserto do Mojave e percorreu mais de 1.700 quilómetros em 3 meses até chegar a Washington. Um livro fantástico. 

 

 

Bossypants - livro onde a conhecida comediante e actriz Tina Fey conta coisas da sua vida: os seus anos de jovem nerd, o seu trabalho no SNL, uma lua de mel que quase foi fatal e os altos e baixos de ser produtora de uma série de sucesso [30 Rock - quem nunca viu devia fazê-lo]. Também inclui dicas de beleza, opiniões nunca antes solicitadas sobre amamentação e bolos de rum. 

 

 

Para Educar Crianças Feministas [no original: Dear Ijeawele, or A Feminist Manifesto in Fifteen Suggestions] - há alguns anos Chimamanda Ngozi Adichie recebeu uma carta de uma amiga de infância perguntando como poderia criar a sua filha como feminista. A carta foi passada a livro e contém preciosos conselhos: deixar a menina escolher os brinquedos que quiser (não só bonecas), falar com ela abertamente sobre sexo e não lhe incutir que o casamento é a coisa mais importante a que uma mulher deve aspirar. Escrito sem rodeios, este é um livro que devia ser lido por toda a gente. 

Boas Notícias - III

O conhecido site Imbd lançou uma classificação feminina para filmes: "Inspirado pela iniciativa da britânica Holly Tarquini, directora executiva do Festival de Cinema de Bath, que em 2014 criou o sistema de classificação F para distinguir os filmes realizados, escritos e protagonizados por mulheres, o site reconhece agora esta classificação, sendo possível pesquisar no site por filmes onde a presença feminina é predominante". A Nike vai lançar em 2018 um hijab próprio para ser usado em provas desportivas. Esta decisão surge depois de várias atletas muçulmanas se terem queixado da dificuldade em encontrar roupa desportiva que pudessem usar de acordo com as suas práticas religiosas e espera-se que incentive mais mulheres a abraçar o desporto. A Islândia pretende acabar com a desigualdade salarial entre géneros até 2022: a ideia é "obrigar todos os empregadores com mais de 25 funcionários a obter um certificado que prove que pagam de forma igualitária a funcionários que fazem o mesmo trabalho". Destaque ainda para a óptima iniciativa de uma livraria do Ohio. Para celebrar o Women's History Month as empregadas viraram ao contrário todos os livros escritos por homens da zona de ficção: "So we are in essence not just highlighting the disparity but bringing more focus to the women’s books now, because they’re the only ones legible on the shelf.”

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